4 de agosto de 2014

A FORÇA E A BELEZA DAS PALAVRAS


por George Gonsalves

Há algum tempo fui a uma concessionária comprar um carro novo. Estava acompanhado da mulher que amo e com quem estou casado há mais de dezessete anos. Após a compra, um animado funcionário apareceu para me levar ao veículo. Foi, então, que ouvi algo que me soou estranho. Apontando para o tal carro, ele disse-me: "Veja, e se apaixone!". Bem, eu estava muito satisfeito com minha mulher e não estava disposto a me apaixonar por nenhum automóvel... 

É claro que entendi o que o rapaz quis dizer com "apaixonar-se" pelo carro, mas este fato me levou a pensar que as palavras estão perdendo muito do seu significado comum, inclusive bíblico, nos levando a confundir sentimentos e expressões. Desta forma, amamos ao próximo e também amamos chocolate; adoramos a Deus e adoramos pizza; seguimos a Cristo e também somos seguidores de alguém no twitter; somos amigos de alguém que compartilha de muito do que somos e pensamos e temos também centenas de amigos no facebook. 

Em um instigante texto, A. W. Tozer manifestou preocupação com uma expressão muito comum entre os evangélicos: "aceitar a Cristo". Para ele, se esta frase foi dita sem qualquer explicação pode levar os homens a diversos pensamentos equivocados sobre o que significa o discipulado cristão: "O problema é que toda a atitude do 'Aceita a Cristo' é provavelmente errada. Mostra Cristo voltado para nós, e não nós para Ele. Representa-O de pé, chapéu na mão, a esperar o nosso veredicto (sic) sobre Ele, em vez de estarmos nós de joelhos, com corações angustiados, esperando o Seu veredicto (sic) sobre nós" ("O que significa aceitar a Cristo", em Esse cristão incrível, p. 14, Ed. Mundo Cristão).

Devemos ter o cuidado para não deixarmos que o valor das palavras bíblicas se percam. Se, por exemplo, vamos ter amigos virtuais, consideremos que a amizade da qual falou Cristo é de outra natureza, a ponto d'Ele falar aos seus discípulos: "tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer" (João 15:15). Quem sabe podemos também alterar nosso vocabulário, a fim de não vulgarizarmos palavras de significados tão belos. Assim, já que dizemos que temos amor por Deus ou por nossos filhos, não deveríamos dizer que amamos também objetos e máquinas. 

Não somente falamos do que nosso coração está cheio, mas as palavras que ouvimos e falamos também altera nossos pensamentos e comportamentos. 

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