27 de janeiro de 2014

COISA DE DEUS, COISA DO DIABO



por George Gonsalves

Muitos cristãos dividem as coisas (e as pessoas) muito facilmente entre pertencentes a Deus ou ao diabo. É uma maneira simplista de enxergar o mundo. Nesta perspectiva existem músicas e livros de Deus, compostos por cristãos, e músicas e livros diabólicos, produzidas por ímpios. Reuniões são de Deus quando prescritas claramente na Bíblia: cultos, ceia do Senhor, batismos. E são do diabo as demais: aniversários, festas de formatura, ceias de natal, etc.
O problema é que, desta forma, corremos o risco de santificar o que não é espiritual e de demonizar aquilo que é sagrado. Usurpamos uma posição que não nos cabe. Passamos a falar de coisas que, em última instância, só Deus pode saber.  
Tomemos como exemplo a música. Havia um tempo em que pensava que tudo o que fosse produzido por um cristão era espiritual. Música boa era música evangélica. Havia dois erros na minha perspectiva. Primeiramente, não podemos saber se aquilo que cantamos foi composto por genuíno crente. Só Deus conhece verdadeiramente os seus. Em segundo lugar, há cristão sinceros que produzem música ruim e que não são "espirituais". Muitos cânticos que são entoados nas igrejas são pobres de conteúdo e biblicamente equivocados. Os autores podem até ser crentes, mas o que eles produzem simplesmente não edifica. 
Na introdução do livro Cristo e Cultura, o teólogo Michael Horton afirma que "música cristã" é: "frequentemente uma desculpa para artistas inferiores conseguir vencer numa sub cultura cristã que imita o brilho e glamour do entretenimento secular, inclusive suas próprias cerimônias de premiação e seu ambiente de super estrelato. Pode ser que essa não seja a intenção por parte de muitos artistas que querem contribuir ao cenário da música cristã contemporânea, mas a indústria acaba produzindo, na maioria, imitações nada criativas, repetitivas, superficiais da música popular. Produzir música em conformidade com os gostos anestesiados duma cultura consumista já é ruim; imitar a arte comercializada é desperdiçar os talentos, a não ser que se esteja escrevendo para o rádio e a televisão. Trivializa tanto a arte quanto a religião". 
Em contrapartida, há músicas que saíram da pena de pessoas que não abraçam a fé cristã, mas que conseguem transmitir beleza e verdade. Do mesmo modo, há livros de não cristãos que nos trazem valiosas lições. Não é preciso ser crente para falar verdades. O próprio apóstolo Paulo em sua pregação em Atenas citou um poeta pagão para ilustrar um verdade bíblica (At. 17:28). Por isso, os puritanos do século XVII afirmavam: "Toda verdade é verdade de Deus". Charles Chauncy afirmou: "Quem pode negar que se encontram muitas excelentes e divinas verdades morais em Platão, Aristóteles, Plutarco, Sêneca, etc?"  (em Santos no Mundo - os puritanos como realmente eram. Leland Ryken. p. 179). 
Obviamente, não quero negar a influência maligna nas artes. Apenas alerto para o fato de que devemos ter discernimento para percebermos a beleza de Deus de forma mais plena no mundo e para descartarmos o profano travestido de sagrado.

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