8 de julho de 2013

A LIÇÃO DE MANDELA


por George Gonsalves

Certa vez, o então presidente norte-americano Bill Clinton, perguntou ao líder sul-africano Nelson Mandela:
- O que aconteceu no dia em que você saiu da prisão? [...] você não os odiava [os brancos] naquele momento?
Ele, então, respondeu:
- Quando senti a raiva crescer, pensei: ‘Eles já prenderam você por 27 anos. E, se você continuar a odiá-los, vão prendê-lo de novo’. Eu disse: ‘Quero ser livre’. E assim relevei tudo. Eu relevei tudo’.[1]
Quando pensamos na vida que Mandela levou chegamos rapidamente à conclusão de que não era fácil relevar tudo. Ele foi preso por longos 27 anos por lutar contra o regime apartheid na África do Sul. Na Ilha Robben ele ocupou uma cela com as dimensões de 2,5 por 2,1 metros, e uma pequena janela de 30 cm. Lá ficou privado das informações do mundo exterior, pois não eram permitidos jornais. 
A mãe de Mandela o visitara em 6 de março de 1966 e depois, no ano seguinte, em 9 de setembro. Após esta última visita, ele teve a sensação, durante a despedida, de que era a última vez que veria a velha senhora, então com 78 anos de idade; de fato, Nosekeni Fanny veio a falecer em 26 de setembro de 1968. 
Libertado em 1990, Mandela foi eleito para presidente quatro anos depois. Especialistas previam um banho de sangue na África do Sul. Seria a hora da revanche. Os negros no poder poderiam agora se vingar dos massacres sofridos pelos brancos no decorrer de tantos anos. Como, por exemplo, esquecer o que ocorreu na cidade de Sharpeville, em 1960? Ali, a polícia sul-africana disparou rajadas de metralhadora contra manifestantes negros que protestavam contra a Lei do Passe, que obrigava os negros da África do Sul a usarem uma caderneta na qual estava escrito aonde eles poderiam ir. 69 pessoas morreram, e cerca de 180 ficaram feridas. Como relevar o massacre de Soweto, em que quatro alunos negros foram mortos pela polícia sul africana, incluindo um estudante de apenas 13 anos de idade?
O perdão é virtude basilar do cristianismo. De fato, não há fé sem perdão. Somos aceitos por Deus porque Ele decidiu nos perdoar. Foi, inclusive, tema de parábola contada por Cristo (Mt. 18:23-35). Nesta estória, Jesus falou de um homem que tem uma enorme dívida perdoada por seu senhor, mas que não perdoa uma pequena dívida de um conservo seu. Depois que sabe do ocorrido, o senhor manda castigar o servo inclemente. Jesus encerrou a parábola com a grave advertência: “Assim também meu Pai celeste vos fará, se do íntimo não perdoardes cada um a seu irmão” (Mt. 18:35).
O próprio Jesus viveu uma vida de perdão. Lançou um olhar amoroso para Pedro após este o negá-lo (Lc. 22:61); procurou dar esperança ao cético Tomé (Jo 20:24-25) e perdoou aos seus algozes na cruz (Lc. 23:34).
Para os discípulos Cristo falou que deveríamos sempre perdoar (Mt. 18:21-22). Obviamente, este é um assunto que é mais fácil falar e escrever do que praticar. Há muitas pessoas que nos deixaram marcas negativas. Traidores, covardes, caluniadores e ingratos já passaram por nossas vidas. A simples lembrança de certos atos que sofremos nos causam dor. Contudo, se quisermos seguir a Jesus, não temos escolha. Assim como Mandela devemos relevar. 
Mas não somente isto. Deus nos conclama a irmos além: somos chamados a amar nossos inimigos. Para isto precisamos, primeiramente, desejar. O perdão deve ser um alvo inalienável em nossas vidas. Após, precisamos de uma comunhão profunda com o Deus que nos perdoou e ainda perdoa sem que mereçamos. Não creio, pois, que o perdão seja resultado apenas de entendimento racional da Bíblia, nem de esforço mental perseverante. Para mim, trata-se de um milagre, só operado por Deus em corações dispostos para recebê-lo.  
O efeito do perdão é imensurável. Além de satisfazer a vontade de Deus, ele sara feridas no que é perdoado. E por fim, ele liberta o perdoador. Mágoas corroem o homem; o perdão liberta. Perdoemos e sejamos livres!      


















   







[1] YANCEY. Philip. Para que serve Deus – em busca da verdadeira fé. São Paulo. Mundo Cristão. 2010. p. 145.

Um comentário:

Waldyr Silva do Carmo disse...

OLá George,

É quase impossível ler esse texto sem se emocionar. As palavras são profundas e retratam de forma clara a forma como Deus quer ver seus filhos. O perdão é curativo, é libertador e promotor de grandes milagres. Que Deus o abençoe sempre nessa nobre tarefa de proclamar as verdades bíblicas. Grande abraço,

Pr. Waldyr do Carmo
IGREJA CASA DE ORAÇÃO CEHAB
http://casadeoracaocehab.com.br

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