14 de março de 2013

O PAPA, OS EVANGÉLICOS E O PECADO DA OMISSÃO

fotos de presos políticos na Argentina

Por George Gonsalves

Mais um papa acaba de ser eleito e ele já tem explicações a dar, não tanto pelo que fez, mas por aquilo que deixou de fazer. Não é a primeira vez que isto acontece. Há cerca de sessenta anos outro pontífice esteve em uma situação semelhante. Pio XII (1939-1958) foi acusado de silenciar durante as atrocidades cometidas pelos nazistas contra os judeus. A história ganhou maior repercussão com a publicação em 1999 do livro O papa de Hitler- a história secreta de Pio XII, do jornalista inglês John Cornwell.
Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, é cobrado por omissão sobre atos de violência cometidos pelo regime militar na Argentina nos anos 70 e 80. Calcula-se que pelo menos trinta mil pessoas desapareceram neste período. A Associação das Mães da Praça de Maio chegou a apresentar uma denúncia na Itália contra o monsenhor Pio Laghi, embaixador do Estado Vaticano, por cumplicidade com os militares[1].  No artigo O papa e o pecado da omissão (Folha de SP, 14/03/2013) Clóvis Rossi lembrou que o jornalista Horácio Verbitsky acusa o agora papa Francisco de ser cúmplice da repressão ao denunciar aos militares, como subversivos, alguns sacerdotes.

 Os evangélicos também já foram acusados muitas vezes de silenciar ante injustiças cometidas, principalmente por governos autoritários. Na Alemanha, houve uma vergonhosa capitulação de parte da Igreja Luterana para o governo nazista de Adolf Hitler[2]. Na ditadura militar no Brasil, o silêncio sepulcral da igreja evangélica em denunciar as violações dos direitos humanos é bem conhecido.
   Mas, graças a Deus, há também bons exemplos na história da igreja. Na Alemanha, protestantes formaram uma resistência na cristandade (igreja confessante) para lutarem contra ideias nazistas. Pastores acabaram em campos de concentração como Dietrich Bonhoeffer. Wilberforce liderou o movimento de abolição do tráfico negreiro na Inglaterra, no século XIX e o pastor Martin Luther King não se acovardou ante a infame discriminação sofrida pelos negros nos Estados Unidos. Aliás, é dele a instigante frase: "O que me assusta não é a violência de poucos, mas o omissão de muitos".   
Temos que reconhecer que o evangelho traz um padrão moral elevadíssimo para o homem. Segundo as Escrituras, Deus olha para nossas ações, mas também para nossas omissões, ou seja, aquilo que devíamos fazer e não fazemos. Silenciar quando devemos falar, protestar ou denunciar é grave pecado. O apóstolo Pedro chegou a ser repreendido severamente por Paulo porque calou diante das heresias do grupo “da circuncisão” (Gálatas 2:11-14). Pecado este não cometido por Ester. Diante da alternativa do silêncio que não lhe traria riscos, preferiu falar com o rei pelo seu povo. Sabendo do risco que corria com esta atitude, ela disse corajosamente: “...irei ter com o rei, ainda que é contra a lei; se perecer, pereci” (Ester 4:17).         
Fica, portanto, para todos os cristãos o alerta contido nas Escrituras: “aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz nisso está pecando” (Tg. 4:17)




[1] Jacopo Fo, Sergio Tomat e Laura Malucelli. O livro negro do cristianismo. Rio de Janeiro-RJ, Ediouro, 2007, p. 207.
[2] André dos Santos Falcão Nascimento. Nazismo e cristianismo. São Paulo-SP, Fonte Editorial, 2012.

Um comentário:

Patricia Galis disse...

Estava lendo sobre isso ontem é uma lastima com certeza , se omitir diante de barbáries é concordar.

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