31 de janeiro de 2013

QUANDO DEUS FOI À BOATE


  
   Há uma pergunta recorrente em uma tragédia: “Onde Deus estava quando tudo ocorreu?”. Seja no holocausto judeu, nos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, ou no incêndio que vitimou mais de duzentos jovens em Santa Maria (RS), a pergunta não quer calar no coração de alguns.
   Soube que alguém usou fotos de corpos que ficaram estirados dentro da boate Kiss, em Santa Maria, para “provar” que Deus não existe. Afinal, se ele existisse, onde estaria no dia da tragédia? Porque não evitou a morte sofrida de tantos jovens?

  Na verdade, o argumento é frágil, pois parte de várias premissas completamente equivocadas. Uma delas é a de que Deus deveria, a qualquer custo, evitar o sofrimento humano. Na teologia cristã, Deus não somente permite o sofrimento dos justos (Jó e o apóstolo Paulo são exemplos clássicos), mas se encarnou para vivenciar todas as dores e temores sentidos pelos homens e, por fim, a própria morte. Ele não nos promete livrar da dor, mas estar conosco nela.

   A Bíblia também nos ensina que Deus, além de onipresente, tem o controle de tudo o que acontece no mundo. Assim sendo, posso afirmar: Deus estava na boate Kiss no dia da tragédia. Sim, não há lugar no Universo em que não esteja (Sl. 139: 7-10). Mais ainda, podemos ver (se a fé nos abrir os olhos) que a mão do Senhor operou naquele lugar e em vários outros espalhados por Santa Maria nos dias subsequentes.

   Se havia mais de mil pessoas naquela boate, então vejo a força de Deus empurrando centenas de jovens para fora daquele lugar, dando-lhes oportunidade de seguirem seu caminho, percebendo a efemeridade e preciosidade de suas vidas.

    Vejo o mover de Deus na vida de jovens que corajosamente enfrentaram a fumaça tóxica para salvar amigos que estavam dentro da boate. Um deles salvou cerca de catorze pessoas e acabou morrendo depois. Na sua epístola, João escreve: “Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e devemos dar nossa vida pelos irmãos” (3:16).

   Vejo a compaixão de Deus na vida de centenas de voluntários que cederam seu tempo, dinheiro e trabalho para minorar o sofrimento alheio. Uns fizeram lanches para os familiares e amigos, que desolados velavam seus mortos. Outros cederam quartos em suas casas para abrigar os que vinham de outras cidades. Alguns, ainda, “choraram com os que choram” (Rm. 12:15) e milhares oraram para que o consolo divino acalentasse os corações feridos.   

  Meus olhos e minha fé não alcançam todas as nuances da providência divina. Também há perguntas que não tenho como responder. Mas, ainda assim, podemos confiar no amor e sabedoria divina, como descreveu o poeta William Cowper:


“Não julgue o Senhor com débil entendimento,

Mas confie nele para sua graça.

Por trás de uma providência carrancuda,

Ele oculta uma face sorridente.


Seus propósitos amadurecerão rapidamente,

Desvendando-se a cada hora;

O botão pode ter um gosto amargo,

Mas a flor será doce.


A incredulidade cega certamente errará

E esquadrinha sua obra em vão:

Deus é seu próprio intérprete

E Ele o tornará claro”.

                              George Gonsalves

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