23 de setembro de 2012

O ERRO DE PREGAR APENAS O QUE SE VIVE



por George Gonsalves 

"Não é de estranhar se não consegue atingir o cume quem tenta uma escalada difícil.”                                                                                                                   Sêneca

Certa vez o escritor russo Tolstoi disse que uma pergunta sempre lhe era feita: “você prega muito bem, mas faz aquilo que prega?”. Esta indagação muitas vezes é dirigida aos cristãos. O que devemos fazer? Alguns caminhos devem ser evitados.
      Em primeiro lugar, o caminho do cinismo. Aqueles que o usam admitem que não vivem o que pregam, mas tampouco estão preocupados em “prosseguirem para o alvo”, em “crescerem na graça e conhecimento do Senhor”. São acomodados nos seus pecados. Admitem que o evangelho tem um patamar ético elevadíssimo, mas não buscam meios para se santificarem e se aproximarem do Senhor. Quando confrontados com seus pecados, se utilizam de frases como: “todos são pecadores” ou “atire a primeira pedra quem não tem pecado.”
      Outro caminho que devemos evitar é o da arrogância. É trilhado por quem acha que vive a plenitude dos ensinamentos bíblicos. Ele rebaixa a doutrina cristã para que se adapte ao seu modo de vida. O seu credo é cuidadosamente selecionado, com textos bíblicos que não incomodem sua consciência. Se apega a promessas estampadas nas Escrituras, que acalentam sua alma, ou a aspectos teológicos profundos do evangelho, que exigem mais de sua mente do que do seus braços, pernas e...bens.
     Para não trilharmos o caminho do cinismo nem da arrogância, precisamos admitir: “não podemos pregar apenas o que vivemos”. Não estou fazendo uma defesa da hipocrisia, tão combatida por Jesus. O hipócrita finge uma santidade que não tem, encena piedade para sobrepor-se a outros. Ocorre que, se pregarmos apenas o que vivemos estaremos ocultando a grandeza do evangelho. Nossa debilidade não deve impedir que o anunciemos em sua inteireza. Ele é digno que falemos dele, apesar de nossa incompetência para vivermos à sua altura.
       Tolstoi reconhecia que o evangelho era superior à sua capacidade de vivê-lo. Em uma carta, ele procurou responder à pergunta que coloquei no início: “Posso pregar apenas através de minhas ações, e minhas ações são vis (...) E respondo que sou culpado, e vil e digno de receber as críticas por meu fracasso em cumpri-las (...) Ataque-me – eu mesmo faço isto -, mas ataque a mim mesmo, em vez de culpar o caminho que sigo”.    
       Precisamos, pois, anunciar que sempre devemos perdoar o próximo, mesmo que nosso coração não esteja pleno de amor, ou ainda, que Cristo exige de nós renúncia, ainda que estejamos negligentes quanto a isto. Contudo, mesmo que admitamos a distância entre nós e o padrão de vida neotestamentário, é preciso que desejemos alcançá-lo. Fomos feitos para Deus e para Ele devemos dirigir nossa vida. Às vezes, sinto-me esmagado pela percepção do quão distante estou do padrão bíblico para minha vida. Mas, não posso ficar imóvel. O apóstolo Paulo se declarou como “o principal dos pecadores” e o “mínimo de todos os santos”. No entanto, revelou um desejo intenso que o impulsionava para uma vida mais piedosa, que se conformasse com Cristo: “Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus” (Fp. 3:12). Que o reconhecimento de nossa miserabilidade seja proporcional ao anseio de nos assemelharmos a Cristo.


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