11 de agosto de 2012

OS DONS E AS ESCRITURAS


        
         Há alguns meses estive em uma conferência sobre teologia cristã. Um dos preletores era um renomado teólogo brasileiro de linha calvinista. Ao responder uma indagação de um ouvinte, ele disse que todo pentecostal está sujeito a graves heresias, porque os pentecostais colocam os dons espirituais em um patamar superior ao das Escrituras Sagradas. Assim sendo, os pentecostais não teriam parâmetro seguro para julgar qualquer manifestação ocorrida no seu meio. Esta afirmação é equivocada.
     Na verdade, o movimento conhecido por neo-pentecostalismo se afastou muito da teologia pentecostal clássica. Nas comunidades deste movimento há uma efusão de doutrinas anti-bíblicas oriundas de uma má compreensão da essência dos dons espirituais e um afastamento do princípio da Reforma Protestante sola scriptura.            
     A teologia pentecostal clássica aceita a atualidade dos dons espirituais como o de profecia, por exemplo. Contudo, rechaça a possibilidade de que alguma manifestação deste dom contrarie o testemunho das Escrituras Sagradas. Ou seja, a Bíblia é a regra única de fé e prática para o cristão, inclusive para julgar pretensas manifestações espirituais. Para confirmar este pensamento cito trechos de livros de vários teólogos pentecostais:
     Claudionor Corrêa de Andrade (pastor da Assembleia de Deus no Brasil):

   “Profecia: As profecias que hoje são enunciadas por intermédio do charisma, embora válidas para a exortação, consolação e edificação dos fiéis, não possuem valor canônico: não têm a validade das profecias registradas na Bíblia, nem tem autoridade para modificar qualquer dogma ou artigo de fé baseado nas Escrituras. Elas têm de passar pelo crivo da Bíblia Sagrada para serem recebidas pela congregação (I-Cor. 15:26-40) (grifei) (Dicionário Teológico.  CPAD. 1998, p. 244).   
               
     Donald Gee (inglês, 1891-1966):

    Presume-se que, na igreja primitiva, as mensagens por meio desses dons [espirituais] tinham a autoridade das Escrituras, mas o Novo Testamento desaprova completamente tal ideia. A igreja primitiva sempre apelava para as Escrituras do Antigo Testamento (note-se, nunca para os seus próprios ‘profetas’), ao sustentar as suas doutrinas e a fim de resolver todas as questões. (Atos 2:16; 15:15; 28:22.) A ’profecia da Escritura’ (II-Pe 1:20) provia um nível totalmente diferente de autoridade para eles, e ainda provê hoje também... [os dons] não foram dados nem para suprir o Novo Testamento, nem para preencher uma falta enquanto ele estava sendo escrito. O propósito desses dons era auxiliar e distinto, e quando empregados corretamente na sua própria esfera, são tão valiosos e necessários hoje em dia, como em qualquer outra época (grifei) (A respeito dos dons espirituais. Ed. Vida. 1987, p. 19).   

       William Menzies e Stanley M. Horton (americanos):
As Escrituras Sagradas, tanto o Antigo quanto o Novo Testamento, são inspiradas verbalmente por Deus. Elas são a revelação de Deus à humanidade, e nossa infalível e autorizada regra de fé e conduta (I-Ts. 2:13; II-Tim. 3:15-16; II-Pe 1:21) (grifei) (Doutrinas Bíblicas – uma perspectiva pentecostal). CPAD. 1995, p. 18.   

Ezequias Soares (brasileiro):
Os escritos divinamente inspirados se encerram na Bíblia, porém, o Senhor continua se comunicando com os seus servos e servas de forma individual, mas essa profecia não se reveste de autoridade para se igualar a dos profetas e apóstolos (grifei) (O Ministério Profético na Bíblia - A voz de Deus na Terra). CPAD. 2010, p. 202.   

J. Rodman Williams (americano, 1918-2008):
Deus se revela aos que estão na comunidade cristã. Essa revelação é subordinada ou secundária à revelação especial atestada nas Escrituras (p. 37).
A revelação especial foi dada por meio dos profetas do Antigo Testamento, de Jesus Cristo e dos primeiros apóstolos. Essa verdade centrada na Palavra encarnada foi preparada pelos antigos profetas e completada pelos primeiros apóstolos. Não há nada mais a acrescentar: a revelação divina foi plenamente declarada. Portanto, o que ocorre na revelação dentro da comunidade cristã não é nova revelação que vai além da revelação especial (nesse caso é espúria, e não divina) (p. 38) (grifei) (Teologia Sistemática – uma perspectiva pentecostal). Ed. Vida. 2011.   

Douglas A. Oss (americano, catedrático de hermenêutica e de NT):
O movimento pentecostal tem sido sempre um movimento baseado na Bíblia, que confia somente nas Escrituras Sagradas como autoridade para a nossa teologia e experiência. Além disso, sempre tivemos nosso compromisso com as doutrinas centrais do evangelicalismo. Não é agora que vamos abandonar a base bíblica da nossa fé. Se o movimento pentecostal se soltar do ancoradouro bíblico, passará a ser um navio sem leme, levado pelos ventos do modernismo e do misticismo. (grifei) (Cessaram os dons espirituais?) Wayne Grudem (org). Ed. Vida. 2003, p. 333.   
George Gonsalves

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