27 de junho de 2012

PASTORES INFALÍVEIS?




por George Gonsalves

Em julho de 1870 o Primeiro Concílio do Vaticano, convocado pelo papa Pio IX, promulgou a perniciosa doutrina da infalibilidade papal. O texto afirmava: “O pontífice romano, quando fala ex cathedra, isto é, desempenhando o ofício de pastor e mestre de todos os cristãos, em virtude de sua suprema autoridade apostólica, define uma doutrina referente à fé ou à moral a ser seguida pela igreja universal, pela divina assistência a ele prometida através do bendito Pedro, é possuidor daquela infalibilidade com a qual o divino Redentor queria que sua igreja fosse dotada.”[1] Nem todos os católicos aceitaram este dogma. O mais conhecido foi o historiador alemão Johann Joseph Ignaz von Döllinger. Pouco tempo depois alguns abandonaram a igreja romana e foi formado o grupo conhecido como Igreja Católica Antiga ou   Velhos Católicos [2].  
Temo que este ensino anti-bíblico tenha sorrateiramente entrado na igreja evangélica. Parece-me que muitos líderes defendem uma espécie de “infalibilidade pastoral”. Proliferam homens que advogam ter o ensino perfeito da Sagrada Escritura. Se alguém desejar saber a vontade de Deus vá a ele. Como afirma o teólogo Ricardo Gouvêa: “Os pastores se comportam como únicos sacerdotes, e são tratados como se fosse, e isso gerou o surgimento de castas sacerdotais nas igrejas protestantes, a separação de uma igreja docente da igreja discente...”[3]. E o pior é que esta “moda” atinge igrejas de diversas correntes teológicas.
Há entre os pentecostais aqueles que se julgam “iluminados” de tal forma que não aceitam ser questionados por ninguém. Afinal, são “ungidos”, “profetas” de Deus, os “anjos” da igreja. Duvidar de algum ensino deles é se levantar contra a autoridade do próprio Deus. Mas, este espírito arrogante e pretensioso também passeia por círculos tradicionais. Para alguns, os ensinos de honrados pastores como Calvino e Spurgeon são inatacáveis. Os cânones e credos antigos são tidos como perfeitas explanações do conteúdo bíblico. Certa vez, um importante líder calvinista disse em um seminário que era tentado a ignorar outros pregadores, pois já conhecia toda a Bíblia.   
Apesar da importância nada desprezível dos líderes eles não são infalíveis. O próprio apóstolo Paulo reconheceu que havia maior virtude entre os ouvintes de Bereia, porquanto “receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim” (Atos 17:11). Ele mesmo cogitou a possibilidade de transmitir um ensino errôneo: “ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema” (Gálatas 1:8). Aos coríntios, ele deu diretrizes para a recepção de profecias na igreja: “Tratando-se de profetas, falem apenas dois ou três, e os outros julguem” (I-Cor. 14:29). Ora, se somos ensinados a julgar as profecias (não os profetas), é porque elas podem ser dissonantes do ensino bíblico. Neste caso, devem ser desconsideradas.
Precisamos, novamente, enfatizar um dos lemas da Reforma Protestante: sola scriptura. Assim, podemos afirmar: Agostinho, Calvino, Lutero, Spurgeon, Wesley, Menno Simons e o seu pastor não é infalível. Só a Escritura Sagrada é porquanto inspirada por Deus (I-Tim. 3:16-17; II Pedro 1:20-21).       

[1] Walker. W. História da Igreja Cristã. 3ª Ed., Aste, 2006, p. 786/787.
[2] Latourette. K. Scott. Uma História do Cristianismo. Vol. 2., Hagnos, 2006, p. 1482/1483.
[3] Gouvêa. Ricardo Quadros. Piedade Pervertida. Fonte Editorial, 2012, p. 29. 

Um comentário:

OUÇA A PALAVRA DO SENHOR disse...

Paz George,
Ótimo artigo sobre "pastores infalíveis". Quanto à igreja católica que se propôs a si mesma como portadora de líderes infalíveis, a própria história já se encarregou de provar o contrário, quando tiveram que rever muitos de suas atitudes, como foi o caso de Joana D'arc, só para citar um fato. Agora este caso de pastores infalíveis, é lamentável, pois outro dia vi alguns pastores se prostrando e reverenciando um tal "apóstolo" que se engrandeceu a si mesmo e disse que o seu ministério foi mais sucedido do que o de JESUS por ter ele feito mais discípulos do que o Grande Mestre. Parece que esta herança está se infiltrando mesmo em algumas igrejas reconhecidamente cristãs. Uma pena! Grande abraço.

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