29 de junho de 2011

O TEXTO PRECONCEITUOSO DE GILBERTO DIMENSTEIN CONTRA OS EVANGÉLICOS


Reproduzo texto de Reinaldo Azevedo sobre artigo de Gilberto Dimenstein publicado na Folha Online.  
Gilberto Dimenstein, para manter a tradição — a seu modo, é um conservador, com sua mania de jamais surpreender — , resolveu dar mais uma contribuição notável ao equívoco ao escrever hoje na Folha Online sobre a Marcha para Jesus e sobre a parada gay. Segue seu texto em vermelho. Comento em azul.
 
São Paulo é mais gay ou evangélica?
Sem qualquer investimento voluntário na polissemia, é um texto tolo de cabo a rabo; do título à última linha. São Paulo nem é “mais gay” nem é “mais evangélica”. Fizesse tal consideração sentido, a cidade é “mais heterossexual” e “mais católica”, porque são essas as maiorias, embora não-militantes. Ora, se a diversidade é um dos aspectos positivos da cidade, como sustenta o articulista, é irrelevante saber se a cidade é “mais isso” ou “mais aquilo”, até porque não se trata de categorias excludentes. Se número servisse para determinar o “ser” da cidade — e Dimenstein recorre ao verbo “ser” —, IBGE e Datafolha mostram que os cristãos, no Brasil, ultrapassam os 90%.
 
Como considero a diversidade o ponto mais interessante da cidade de São Paulo, gosto da idéia de termos, tão próximas, as paradas gay e evangélica tomando as ruas pacificamente. Tão próximas no tempo e no espaço, elas têm diferenças brutais.
Nessas poucas linhas, o articulista quer afastar a suspeita de que seja preconceituoso. Está, vamos dizer assim, preparando o bote. Vamos ver.

Os gays não querem tirar o direito dos evangélicos (nem de ninguém) de serem respeitados. Já a parada evangélica não respeita os direitos dos gays (o que, vamos reconhecer, é um direito deles). Ou seja, quer uma sociedade com menos direitos e menos diversidade.
Está tudo errado! Pra começo de conversa, que história é essa de que “é um direito” dos evangélicos “não respeitar” os direitos dos gays? Isso é uma boçalidade! Nenhum evangélico reivindica o “direito” de “desrespeitar direitos” alheios. A frase é marota porque embute uma acusação, como se evangélicos reivindicassem o “direito” de desrespeitar os outros.
Agora vamos ver quem quer tirar o direito de quem. O tal PLC 122, por exemplo, pretende retirar dos evangélicos — ou, mais amplamente, dos cristãos — o direito de expressar o que  suas respectivas denominações religiosas pensam sobre a prática homossexual. Vale dizer: são os militantes gays (e não todos os gays), no que concerne aos cristãos, que “reivindicam uma sociedade com menos direitos e menos diversidade”. Quer dizer que a era da afirmação das identidades proibiria cristãos, ou evangélicos propriamente, de expressar a sua? Mas Dimenstein ainda não nos ofereceu o seu pior. Vem agora.
 
Os gays usam a alegria para falar e se manifestar. A parada evangélica tem um ranço um tanto raivoso, já que, em meio à sua pregação, faz ataques a diversos segmentos da sociedade. Nesse ano, um do seus focos foi o STF.
Milhões de evangélicos se reuniram ontem nas ruas e praças, e não se viu um só incidente. A manifestação me pareceu bastante alegre, porém decorosa. Para Dimenstein, no entanto, a “alegria”, nessa falsa polarização que ele criou entre gays e evangélicos, é monopólio dos primeiros. Os segundos seriam os monopolistas do “ranço um tanto raivoso”. Ele pretende evidenciar o que diz por meio da locução conjuntiva causal “já que”, tropeçando no estilo e no fato.  A marcha evangélica, diz, “faz ataques a diversos segmentos da sociedade” — neste ano, “o STF”. O democrata Gilberto Dimenstein acredita que protestar contra uma decisão da Justiça é prova de ranço e intolerância, entenderam? Os verdadeiros democratas sempre se contentam com a ordem legal como ela é. Sendo assim, por que os gays estariam, então, empenhados em mudá-la? No fim das contas, para o articulista, os gays são naturalmente progressistas, e tudo o que fizerem, pois, resulta em avanço; e os evangélicos são naturalmente reacionários, e tudo o que fizerem, pois, resulta em atraso. Que nome isso tem? PRECONCEITO!
 
Por trás da parada gay, não há esquemas políticos nem partidários.
Bem, chego a duvidar que Gilberto Dimenstein estivesse sóbrio quando escreveu essa coluna. Não há?

Na parada evangélica há uma relação que mistura religião com eleições, basta ver o número de políticos no desfile em posição de liderança.
Em qualquer país do mundo democrático, questões religiosas e morais se misturam ao debate eleitoral, e isso é parte do processo. Políticos também desfilam nas paradas gays, como todo mundo sabe.
 
Isso para não falar de muitos personagens que, se não têm contas a acertar com Deus, certamente têm com a Justiça dos mortais, acusados de fraudes financeiras.
Todos sabem que o PT é o grande incentivador dos movimentos gays. Como é notório, trata-se de um partido acima de qualquer suspeita, jamais envolvido em falcatruas, que pauta a sua atuação pelo mais rigoroso respeito às leis, aos bons costumes e à verdade.
 
Nada contra –muito pelo contrário– o direito dos evangélicos terem seu direito de se manifestarem. Mas prefiro a alegria dos gays que querem que todos sejam alegres. Inclusive os evangélicos.
Gilberto Dimenstein precisa estudar o emprego do infinitivo flexionado. A inculta e bela virou uma sepultura destroçada no trecho acima. Mas é pior o que ele diz do que a forma como diz. Que história é essa de “nada contra”? Sim, ele escreve um texto contra o direito de manifestação dos evangélicos. O fato de ele negar que o faça não muda a natureza do seu texto. Ora, vejam como os militantes gays são bonzinhos — querem que todos sejam alegres —, e os evangélicos são maus: pretendem tolher a livre manifestação do outro. SÓ QUE HÁ UMA DIFERENÇA QUE A ESTUPIDEZ DO TEXTO DE DIMENSTEIN NÃO CONSIDERA: SÃO OS MILITANTES GAYS QUE QUEREM MANDAR OS EVANGÉLICOS PARA A CADEIA, NÃO O CONTRÁRIO. São os movimentos gays que querem rasgar o Artigo 5º da Constituição, não os evangélicos.
 
Civilidade é a diversidade. São Paulo, portanto, é mais gay do que evangélica.
Hein??? A conclusão, obviamente, não faz o menor sentido nem decorre da argumentação. Aquele “portanto” dá a entender que o autor demonstrou uma tese. Bem, por que a conclusão de um texto sem sentido faria sentido? Termina tão burro e falacioso como começou.

Por Reinaldo Azevedo, em 26/06/2011.

27 de junho de 2011

BRASIL, A TERRA DAS "BÍBLIAS"

Maior produtor mundial, o País edita um texto sagrado a cada três segundos e exporta para 105 nações

Wilson Aquino
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Desde que o alemão Johann Gutenberg imprimiu a primeira “Bíblia”, em 1450, o texto sagrado é o livro mais vendido do mundo, com uma tiragem estimada entre seis e oito bilhões de exemplares. Agora o Brasil acaba de se inserir na história da “Bíblia” ao se tornar o maior produtor da escritura religiosa e registrar a impressão da centésima milionésima edição. O feito histórico aconteceu na Gráfica da Bíblia, em Barueri, em São Paulo, onde são rodados entre 30 mil e 40 mil obras sacras por dia – ou seja, uma “Bíblia” ou Novo Testamento a ca­­­­­da três segundos. A data da impressão histórica, 26 de maio, passará a fazer parte do calendário religioso brasileiro.

A Gráfica da Bíblia pertence à Sociedade Bíblica do Brasil (SBB), uma instituição filantrópica fundada por líderes cristãos em 1948, no Rio de Janeiro, com o objetivo de difundir o texto religioso. Ao contrário do que se poderia supor, a Igreja Católica não é a principal cliente da gráfica – o posto é dos evangélicos. A SBB, organização ecumênica, produz livros sob encomenda para denominações neopentecostais, como as igrejas Renascer em Cristo e Universal do Reino de Deus, e pentecostais, como a Assembleia de Deus, entre outras que disputam os cristãos.
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“A Igreja Católica nunca deu ênfase à leitura da “Bíblia”. Os evangélicos compram mais”, explicou o teólogo gaúcho Erní Seibert, secretário de comunicação e ação social da SBB. Segundo ele, a instituição vende cerca de seis milhões de “Bíblias” por ano, ao preço médio de R$ 10, começando por R$ 2 (o campeão de vendas, de brochura) até chegar à mais cara edição, de R$ 133,90, a “Bíblia de Estudo Shedd”, com capa de couro, mapas coloridos e dez mil notas de rodapé. Vinte por cento da produção é destinada à exportação para 105 países, em línguas como inglês, espanhol, árabe, hebraico e também latim. A SBB lança 40 títulos inéditos por ano. Muitos temáticos, como a “Bíblia da Família”, a “Bíblia da Mulher” e a “Bíblia do Surfista”.

A SBB domina 70% do mercado editorial bíblico brasileiro. Os outros 30% são divididos entre editoras como as católicas Vozes e Ave Maria, por exemplo. Tudo o que é arrecadado com as vendas é revertido para projetos sociais da instituição e aplicado na confecção de novas “Bíblias”. “Quando inauguramos a Gráfica da Bíblia, nossa capacidade era de dois milhões por ano. Investimos e a tiragem mais do que triplicou”, afirma Seibert. Boa parte da produção é distribuída gratuitamente em escolas, presídios e comunidades carentes. “Imprimimos 2,5 mil “Bíblias” em braile anualmente e doamos aos deficientes visuais que nos procuram. Somente isso é um investimento de mais de R$ 1 milhão por ano.”

FONTE: Revista IstoÉ, nº 2172, junho/2011. 

23 de junho de 2011

A OUTRA ASSEMBLÉIA DE DEUS

    Em homenagem ao centenário do movimento que culminou com a denominação Assembléia de Deus, transcrevo na íntegra artigo instigante do Pastor Joanyr de Oliveira publicado no Mensageiro da paz nº 1285, de abril de 1994. Ele pastoreou a Igreja Assembléia de Deus em Sobradinho-DF, Quadra 12 - Área Especial, nos anos 1985 a 1987. Em 2006 fundou uma Assembleia de Deus no coração do Plano Piloto. Além disso, foi o criador das revistas  "A Seara" e "Jovem Cristão" (extintas) e "Manual do Obreiro Cristão" e editor do livro "História ilustrada das Assembléias de Deus no Brasil". Ele partiu para o Senhor  um dia antes de completar 76 anos de idade, em 5 de dezembro de 1999.
   
Templo da Assembléia de Deus de Porto Velho (1926)
     "E rogo-vos, irmãos, que noteis os que promovem dissenssões e escândalos contra a doutrina que aprendestes...". Rm. 16:17.
    "Não vos deixeis levar em redor por doutrinas várias e estranhas, porque bom é que o coração se fortifique com graça, e não com manjares, que de nada aproveitam aos que a eles se entregaram". Hb. 13:9.
    "Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude e s ehá algum louvor, nisso pensai". Fp. 4:8.
   "Amados, não creais a todo espírito, mas provai se os espíritos são de Deus; porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo". I Jo 4:1.      
    Sinto saudades da Assembléia de Deus em que os cultos se realizavam com toda a simplicidade, sem as "técnicas" que tanto impressionam nos dias de hoje.
   Os pregadores não tinham cultura. Eram agricultores, pedreiros, sapateiros, ferroviários, balconistas, homens de pouca ou nenhuma escolaridade, oradores sem homilética - mas como o Espírito Santo operava! E me pergunto: por que é que agora, tantas e tantas vezes predomina a frieza, ou tudo se torna artificial, falso, inautêntico? Agora, quando tantos entre nós são bem preparados, intelectualmente; quando dispomos de tantos (e de alguns ótimos) institutos bíblicos, é que o progresso da obra deveria estar acelerado. Mas as igrejas, em sua maioria, seguem com lentidão, e os milagres até desapareceram de muitas delas.
    Seria então a cultura um fator negativo, como - a escandalizar-nos - declaravam espíritos obscurantistas, notórios na apologia da ignorância? Claro que não! O nosso Deus é Sábio dentre os sábios. A Bíblia, "o livro de meu Deus" conforme diz o hino, é a maior obra da literatura universal. As páginas inspiradas pelo Espírito Santo aos profetas, aos evangelistas, aos apóstolos são muito mais lidas e amadas, pela sua beleza e profundidade, do que Platão, Sócrates, Aristóteles, Cícero, Dante, Milton, Shakespeare, Dostoievski, Cervantes, Camões... e tantos outros.
    Que, então, estará acontecendo?
    Se a sabedoria não afastou Salomão ou Paulo de uma vida de perfeita comunhão com Deus, antes contribuiu para que se colocassem mais junto dele, mais a ele submissos, não seria agora que a cultura haveria de trazer incompatibilidade entre os crentes e o seu Senhor.
    O que falta, provavelmente, são joelhos humildemente dobrados na presença do Altíssimo, mais acatamento das autênticas doutrinas bíblicas, mais simplicidade, mais autenticidade. (E, a esta altura, é oportuno lembrar aqueles de que falou Jesus, segundo Mateus 6:16: "E, quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas, porque desfiguram os seus rostos para que aos homens pareça que jejuam. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão".)
    O conforto material, o dinheiro (muitas igrejas são ricas) têm colcocado as orações em segundo plano, porque agora parece que não nos consideramos tão dependentes do socorro de Deus. Implantaram-se novos "valores", desaprendeu-se a busca "primeiramente o reino de Deus e a sua justiça..." Agora, o que se sequer é status, são glórias humanas, são bens materiais.
    Há os que compram apoio, há os que se vendem para obter mordomias, títulos e espaço ministerial. Há "consagrações" de neófitos, de meros "aliados", simples bajuladores, de pessoas sem a menor dignidade, sem nenhuma chamada do Senhor. Há os que jogam para o interior da igreja verdadeiros "entulhos" doutrinários, os quais estavam longe de ser admitidos na Assembléia de Deus dos nossos antepassados. Há os profissionais do púlpito, para os quais inexistem princípios, não há ética, mas apenas interesses, "tronos" a serem preservados a qualquer preço. (E ai dos que discordarem desses intocáveis "ungidos" que tanto envergonham a igreja com suas manobras, falsidades, usurpações e inovações danosas ao corpo de Cristo...) Há os que transformam os púlpitos em balcões de negócios e palanques, e vendem os crentes como se fossem gado, humilhando a igreja perante o mundo, conspurcando a sua santidade emanada na Cruz. (E os que se angustiam com isso são estigmatizados com a pecha de rebeldes e de "esquerdistas"...).
    Sinto saudades da Assembléia de Deus que os políticos desprezavam. Somente éramos lembrados pela ira dos vizinhos, os quais nos ofendiam, apedrejavam e ameaçavam com ações na Justiça. Truculentos delegados de polícia atormentavam os nossos obreiros, perseguindo-os pela "prática de curandeirismo" e pela "perturbação à ordem pública".
    Nenhum candidato a cargo eletivo batia à porta do pastor ou do templo - graças a Deus por isso! - para oferecer o dinheiro vil, o emprego público imerecido e indigno, que jorram hoje, como lama, para o nosso meio. Nós éramos tão pouquinhos, a Casa de Oração funcionava em uma humilde residência, em um casebre na rua mais pobre do subúrbio. Os poderosos se riam dos "bíblias" e inventavam as mais sórdidas histórias sobre a nossa moral, levando pais de famílias a nos abominarem, a espancar os filhos a abondonar esposas que decidiam pagar qualquer preço pela fidelidade ao Senhor.
    Os eminentes não tomavam café à nossa mesa, porque desprezavam a "gentinha"; mas como o Espírito Santo nos visitava! Como Deus nos falava - e eram tão raros os falsos profetas!... Como as curas aconteciam! - e não era necessário que ninguém induzisse, com gritaria e lavagens cerebrais, para que o sobrenatural acontecesse. Como era comum o batismo no Espírito Santo! (Hoje, muitas vezes, Deus opera apenas por amor à sinceridade e pureza dos crentes, e só por isso...)
    Sinto saudades da Assembléia de Deus que os pioneiros nos legaram. Os hinos eram mal cantados, e no entanto nossos corações jubilavam. Sonhávamos com um singelo trombone ou clarinete... Órgão, nem em sonho... Piano? Nem pensar... Tê-losA outra Assembleia de Deus era privilégio dos irmãos batistas e prebiterianos... Mas hoje, tudo mudou. Corais belíssimos, conjuntos e orquestras arrebatadores. Louvamos a Deus porque eles chegaram. Contudo, nos entristecemos quando pensamos naquelas "estrelas" e nos "astros" que também chegaram aos templos para exibir-se, para mostrar os seus dotes artísticos. (Quem disse que "toda honra e toda glória pertencem ao Senhor?" talvez algum antiquado, algum dromedário, alguém que se perdeu nos labirintos da Idade Média, que - pobrezinho - se esqueceu de ficar moderno...) O profissionalismo, no que há de pior na expressão, fala muito mais alto. Muitos dos cantores de hoje jamais experimentaram o "novo nascimento" em Cristo Jesus. Muitos dos hinos são compostos ou orquestrados por ateus, agnósticos, espíritas; muitos músicos participam das gravações apenas pelo dinheiro, nem sabem onde fica a Casa de Deus. E quando aqueles cantam, quando se exibem, há auditórios que explodem em aplausos, tudo como nos mais ruidosos espetáculos mundanos... Muitas igrejas vulgarizam, o folclore tomou o lugar da unção verdadeira e da santidade requerida pelo Espírito do Senhor. A Casa de Oração transformou-se em teatro, o povo passou a exigir atores e artistas da palavra a e da música. (Que estes estipulem seus cachês, que digam o quanto de prata e de ouro deve ser trocado pelo brilho de seu talento, porque o povo paga com alegria. Não é assim entre os ímpios e seus ídolos? "Por que não há de ser também assim na igreja do fim deste tremendo século?")
    Sinto saudades da Assembléia de Deus - da única Assembléia de Deus que outrora existia, em todos os rincões do Brasil. "Um só Senhor, uma só fé...", Ef. 4.5. Agora muita coisa mudou; quase sempre porque - em vez de se conservar o modelo - passou-se a imitar exatamente os que deviam seguir o exemplo da igreja que, impulsionada pelo Espírito, se tornou a maior comunidade pentecostal de toda a História e de todo o mundo. Isto porque nela todos amavam a Palavra de Deus e a seguiam.
    Felizmente, aquela Assembléia de Deus não acabou de todo. Ainda há muitos obreiros e milhões de crentes que não mudaram. Sem ser legalistas, sem aplaudir obscurantismos, sem admitir farisaímos que também desfiguram a Igreja do Senhor, mantêm-se fiéis ao modelo deixado pelos pioneiros. Graças a Deus, porque eles estão firmes e resistem aos "ventos de doutrinas" e à avassaladora onda de corrupção de nosso tempo. Porque eles existem, e porque em toda a Terra existem crentes como ele, Jesus pode vir buscar a sua Igreja - pode vir, e não voltará aos céus de mãos vazias. (Louvado seja o Santo Nome!)
       

EXPRESSÕES E PALAVRAS



"... E atentou O Senhor para Abel e para sua a oferta. Mas para Caim e para a sua oferta não atentou. E irou-se Caim fortemente, e descaiu-lhe o seu semblante. E O Senhor disse a Caim: por que te iraste? E por que descaiu o teu semblante? " (Gênesis 4:5-6).


          Estou certa de que o semblante é uma manifestação do que está dentro de nós e Caim, o primeiro homicida, mostrou-nos claramente isso. Um aspecto tombado pelo peso da sua ira.
          Nosso semblante denuncia-nos quando estamos preocupados ou aliviados, saudáveis ou enfermos, tristes ou alegres, animados ou vencidos pelo desânimo, ou mesmo ressentidos. Serve-nos de sinal, uma espécie de alerta quando as coisas não vão muito bem dentro de nós.
          É lamentável o momento em que vivemos. A era do culto ao corpo em que nada parece mais importante aos homens que tentar mascarar seu estado interior super valorizando a aparência exterior. Intervenções cirúrgicas, academias, técnicas de maquiagem parecem tomar o lugar daquilo que deveria ser o mais importante, o cuidado com o coração. E todo esse esforço é vão, pois tais artifícios seriam incapazes de transformar um coração triste, amargurado, ou preocupado, num semblante feliz e tranquilo.
        Segundo o escritor de provérbios, o coração alegre aformoseia o rosto. Não existe um meio mais simples de alcançar a verdadeira beleza senão por esse intermédio. E é óbvio que o conceito de alegria na Bíblia é completamente diferente da noção que o mundo tem. A alegria de que trata as Escrituras é fruto de um encontro pessoal e legítimo com Cristo.
           Por tudo isso fica-nos dois importantes conselhos:
     Cuidemos do nosso interior cultivando sentimentos saudáveis para que possamos expressar em nossa face o que de melhor Deus nos concedeu e sejamos sensíveis o suficiente para observar nos semblantes aquilo que por alguma razão os lábios silenciam. As expressões nos falam muito mais do que palavras.
Silvana Sales



17 de junho de 2011

EVANGÉLICOS E A DITADURA MILITAR: CONSIDERAÇÕES


                                                          Foto: O Globo (21.07.68)

           A reportagem da revista IstoÉ desta semana sobre a atuação dos evangélicos no período da ditadura militar brasileira, traz assuntos que geram muitas discussões: qual o papel do cristão ante determinados momentos da história social de seu país? Deve o cristão submissão irrestrita às autoridades, sejam elas quais forem?
          Primeiramente, é preciso dizer que o uso de generalização na História (tão útil para fins didáticos) pode nos levar a não perceber a beleza da sua complexidade. Deste modo, os grupos que a História estuda quase nunca são homogênios. Assim, na Segunda Guerra Mundial encontramos inúmeros líderes protestantes prostados ante Hitler, mas também encontramos a resistência e a coragem de pastores como Bonhoeffer (morto em um campo de concentração) e André Trocmé (preso por abrigar judeus). Na luta pela emancipação dos escravos, havia evangélicos dos dois lados. Muitos eram escravagistas, mas do outro lado da trincheira havia um Wilbeforce, ou mesmo John Wesley.
          Podemos, pois, distinguir na reportagem supra citada pelo menos três tipos de comportamento que os evangélicos tiveram nos anos de chumbo no Brasil. Primeiramente, houve aqueles que, apesar de manterem uma certa distância dos embates políticos, saudaram a chegada dos militares ao poder. Entre eles estão pastores como Enéas Tognini, líder batista que nos anos 80 fundou a Igreja Batista do Povo. Ele assim escreve em sua autobiografia: "E Deus respondeu ao clamor do seu povo com 31 de março de 1964. Um grupo de brasileiros acha que a revolução de 1964 foi política, cometeu muita injustiça. Não importa, o importante é que Deus fechou a porta para o comunismo. Para nós, evangélicos, o maravilhoso resultado foi LIBERDADE PARA ANUNCIARMOS A PALAVRA DE DEUS" (Enéas Tognini - A autobiografia. Ed. Hagnos. p. 164).
          É preciso termos em conta que havia uma ameaça comunista real no país. Boa parte da esquerda não era democrática, mas queria implantar no Brasil um regime socialista, seja inspirado na União Soviética ou em Cuba. O comunista Prestes falava: "Já temos o poder, falta-nos o governo". Lembremos que nos países socialistas havia uma perseguição real aos religiosos, inclusive com confiscos de imóveis e prisões. Não é de admirar que os evangélicos temessem a tomada de poder pela esquerda. O golpe militar foi um alívio, entendido, inclusive, como ato da providência divina. Compreendo este posicionamento, com uma ressalva. Na frase que citei do pastor Tognini, ele demonstra um desdém por injustiças cometidas pelo regime militar. Tal posição não se coaduna com a ótica bíblica: "Ai dos que decretam leis injustas, dos que escrevem leis de opressão, para negarem justiça aos pobres, para arrebatarem o direito dos aflitos do meu povo..." (Isaías 10:1-2).
          Em segundo lugar, a repotagem da IstoÉ traz a história de evangélicos que foram perseguidos pelos militares, inclusive com prisões e torturas. É o caso de Anivaldo Pereira Padilha, da Igreja Metodista do bairro da Luz, em São Paulo, Zwinglio Mota Dias, hoje com 70 anos, pastor emérito da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil, da Penha, no Rio de Janeiro e do teólogo Leonildo Silveira Campos, que era seminarista na Igreja Presbiteriana Independente e ficou dez dias encarcerado nas dependências da Operação Bandeirante (Oban), em São Paulo. Todos lutavam por um país mais justo, que oferecesse uma condição digna para o seu povo. Poderiam estar imbuídos do sentimento de indignação que enchia o peito de profetas no Antigo Testamento, quando denunciavam a injustiça em Israel. Sem entrar em pormenores, entendo que o cristão não deve se omitir ante os problemas sociais dos seus compatriotas. Não devemos nos fechar em guetos, em nosso mundinho eclesiástico, enquanto há clamores de justiça ao nosso redor. No entanto, mais uma vez faço uma ressalva: não entendo com legítima o uso de violência pelo cristão, mesmo com fins pretensamente nobres.
          Por fim, houve uma outra posição tomada por alguns evangélicos brasileiros: a participação ativa na repressão. A revista cita os irmãos José Sucasas Jr. e Isaías Fernandes Sucasas, pastor e bispo da Igreja Metodista, que delataram pessoas da própria igreja que pastoreavam, e o pastor batista Roberto Pontuschka, capelão do Exército, que, segundo o texto, "torturava os presos à noite e de dia visitava celas distribuindo o Novo Testamento. Este comportamento é simplesmente inaceitável. Causa-me vergonha saber que líderes de importantes igrejas tenham tido atitudes como estas. Sei dos conhecidos argumentos em prol da submissão às autoridades, mas Cristo nunca se dobra à César. Os valores cristãos são inegociáveis. Por isso, os apóstolos puderam falar: "Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens" (Atos 5:29).
          Concluo afirmando que o conhecimento da História é-nos de muita serventia. Refletir sobre o passado pode nos levar a construir um futuro melhor, a repensar "nossas teologias". Devemos observar que os evangélicos da década de 60 tiveram que tomar posições "no calor do momento", com aquilo que sabiam. Nós também precisamos nos posicionar hoje sobre temas de nosso tempo. As injustiças ainda perduram, os problemas sociais ainda existem. Que caminhos devemos tomar? No futuro os homens vão escrever sobre como os evangélicos do início do século XXI se portaram ante o seu mundo. Nossa história nós a fazemos hoje.

George Gonsalves

15 de junho de 2011

PALAVRAS NA AREIA

“E os escribas e fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério... E pondo-a no meio, disseram-lhe: Mestre, esta mulher foi apanhada, no próprio ato, adulterando, e, na lei, nos mandou Moises que as tais sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes?... Mas Jesus inclinando-se, escrevia com o dedo na terra. E como insistissem, perguntando-lhe, endireitou-se e disse-lhes: Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela. E tornando a inclinar-se, escrevia na terra” (João 8:2-8).
        Este é a meu ver um dos textos sagrados mais belos e intrigantes. Belo porque expressa o amor, a misericórdia de Deus pelo homem pecador, e intrigante pela tranquilidade inabalável de Jesus em meio a todo aquele tumulto.
     Intrigante também por causa das suas surpreendentes ações. Os fariseus e escribas esperavam, a princípio, uma resposta: "Tu, pois, que dizes?" E Jesus silenciosamente escrevia... Os religiosos insistem. Querem um julgamento, uma sentença, e o que Jesus diz atinge-os diretamente: "Aquele que dentre vós está sem pecado...” E inclinando-se continua a escrever. Deveria ser muito importante o que escrevia, porque Ele dá continuidade. 
    Quem de nós nunca se perguntou ou desejou saber o que Jesus escrevia naquele momento? A Bíblia não nos diz, mas teólogos se arriscam e dão seus palpites. Há quem acredite que naquele momento Jesus deveria estar escrevendo os pecados do povo, pois ao final de tudo, todos saíram, um a um, do mais velho ao mais jovem e naquele cenário, antes conturbado por uma multidão polvorosa, encontrava-se apenas Jesus e aquela mulher.
        No livro Derrubando Golias, Max Lucado faz uma citação brilhante e que me fez pensar muito nesse episódio: “Escreva as preocupações de hoje na areia, grave as vitorias de ontem na pedra”. Apesar de nossas tentativas, não sabemos ao certo o que Jesus escreveu, mas sabemos onde Ele escreveu. E se é verdade que Jesus escrevia pecados naquele momento, para os acusadores era a palavra final, mas para aquela mulher era a sua absolvição.
     Essa história se repete até hoje. E, fazendo uso da frase de Lucado, digo que nossos pecados, causa de nossos fracassos, Jesus os escreve na areia, onde o seu perdão tem o poder de apagar e a nossa maior vitória Ele grava-a em pedra, para que não mais esqueçamos do Deus amoroso que Ele é.
        Com certeza, aquela mulher nunca mais esqueceu.
Silvana Sales

12 de junho de 2011

REVISTA ISTOÉ: OS EVANGÉLICOS E A DITADURA MILITAR:

Documentos inéditos do projeto Brasil: Nunca Mais - até agora guardados no Exterior - chegam ao País e podem jogar luz sobre o comportamento dos evangélicos nos anos de chumbo

Rodrigo Cardoso 
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No primeiro dia foram oito horas de torturas patrocinadas por sete militares. Pau de arara, choque elétrico, cadeira do dragão e insultos, na tentativa de lhe quebrar a resistência física e moral. “Eu tinha muito medo do que ia sentir na pele, mas principalmente de não suportar e falar. Queriam que eu desse o nome de todos os meus amigos, endereços... Eu dizia: ‘Não posso fazer isso.’ Como eu poderia trazê-los para passar pelo que eu estava passando?” Foram mais de 20 dias de torturas a partir de 28 de fevereiro de 1970, nos porões do Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), em São Paulo. O estudante de ciências sociais da Universidade de São Paulo (USP) Anivaldo Pereira Padilha, da Igreja Metodista do bairro da Luz, tinha 29 anos quando foi preso pelo temido órgão do Exército. Lá chegou a pensar em suicídio, com medo de trair os companheiros de igreja que comungavam de sua sede por justiça social. Mas o mineiro acredita piamente que conseguiu manter o silêncio, apesar das atrocidades que sofreu no corpo franzino, por causa da fé. A mesma crença que o manteve calado e o conduziu, depois de dez meses preso, para um exílio de 13 anos em países como Uruguai, Suíça e Estados Unidos levou vários evangélicos a colaborar com a máquina repressora da ditadura. Delatando irmãos de igreja, promovendo eventos em favor dos militares e até torturando. Os primeiros eram ecumênicos e promoviam ações sociais e os segundos eram herméticos e lutavam contra a ameaça comunista. Padilha foi um entre muitos que tombaram pelas mãos de religiosos protestantes.
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O metodista só descobriu quem foram seus delatores há cinco anos, quando teve acesso a documentos do antigo Sistema Nacional de Informações: os irmãos José Sucasas Jr. e Isaías Fernandes Sucasas, pastor e bispo da Igreja Metodista, já falecidos, aos quais era subordinado em São Paulo. “Eu acreditava ser impossível que alguém que se dedica a ser padre ou pastor, cuja função é proteger suas ovelhas, pudesse dedurar alguém”, diz Padilha, que não chegou a se surpreender com a descoberta. “Seis meses antes de ser preso, achei na mesa do pastor José Sucasas uma carteirinha de informante do Dops”, afirma o altivo senhor de 71 anos, quatro filhos, entre eles Alexandre, atual ministro da Saúde da Presidência de Dilma Rousseff, que ele só conheceu aos 8 anos de idade. Padilha teve de deixar o País quando sua então mulher estava grávida do ministro. Grande parte dessa história será revolvida a partir da terça-feira 14, quando, na Procuradoria Regional da República, em São Paulo, acontecerá a repatriação das cópias do material do projeto Brasil: Nunca Mais. Maior registro histórico sobre a repressão e a tortura na ditadura militar (leia quadro na pág. 79), o material, nos anos 80, foi enviado para o Conselho Mundial de Igrejas (CMI), organização ecumênica com sede em Genebra, na Suíça, e para o Center for Research Libraries, em Chicago (EUA), como precaução, caso os documentos que serviam de base do trabalho realizado no Brasil caíssem nas mãos dos militares. De Chicago, virá um milhão de páginas microfilmadas referentes a depoimentos de presos nas auditorias militares, nomes de torturadores e tipos de tortura. A cereja do bolo, porém, chegará de Genebra – um material inédito composto por dez mil páginas com troca de correspondências entre o reverendo presbiteriano Jaime Wright (1927 – 1999) e o cardeal-arcebispo emérito de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, que estavam à frente do Brasil: Nunca Mais, e as conversas que eles mantinham com o CMI.

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Somente em 1968, quatro anos após a ascensão dos militares ao poder, o catolicismo começou a se distanciar daquele papel que tradicionalmente lhe cabia na legitimação da ordem político-econômica estabelecida. Foi aí, quando no Brasil religiosos dominicanos como Frei Betto passaram a ser perseguidos, que a Igreja assumiu posturas contrárias às ditaduras na maioria dos países latino-americanos. Os protestantes, por sua vez, antes mesmo de 1964, viveram uma espécie de golpe endógeno em suas denominações, perseguindo a juventude que caminhava na contramão da ortodoxia teológica. Em novembro de 1963, quatro meses antes de o marechal Humberto Castelo Branco assumir a Presidência, o líder batista carismático Enéas Tognini convocou milhares de evangélicos para um dia nacional de oração e jejum, para que Deus salvasse o País do perigo comunista. Aos 97 anos, o pastor Tognini segue acreditando que Deus, além de brasileiro, se tornou um anticomunista simpático ao movimento militar golpista. “Não me arrependo (de ter se alinhado ao discurso dos militares). Eles fizeram um bom trabalho, salvaram a Pátria do comunismo”, diz.

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Assim, foi no exercício de sua fé que os evangélicos – que colaboraram ou foram perseguidos pelo regime – entraram na alça de mira dos militares (leia a movimentação histórica dos protestantes à pág. 80). Enquanto líderes conservadores propagavam o discurso da Guerra Fria em torno do medo do comunismo nos templos e recrutavam formadores de opinião, jovens batistas, metodistas e presbiterianos, principalmente, com ideias liberais eram interrogados, presos, torturados e mortos. “Fui expulso, com mais oito colegas, do Seminário Presbiteriano de Campinas, em 1962, porque o nosso discurso teológico de salvação das almas passava pela ética e a preocupação social”, diz o mineiro Zwinglio Mota Dias, 70 anos, pastor emérito da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil, da Penha, no Rio de Janeiro. Antigo membro do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi), que promovia reuniões para, entre outras ações, trocar informações sobre os companheiros que estavam sendo perseguidos, ele passou quase um mês preso no Doi-Codi carioca, em 1971. “Levei um pescoção, me ameaçavam mostrando gente torturada e davam choques em pessoas na minha frente”, conta o irmão do também presbiteriano Ivan Mota, preso e desaparecido desde 1971. Hoje professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, Dias lembra que, enquanto estava no Doi-Codi, militares enviaram observadores para a sua igreja, para analisar o comportamento dos fiéis.

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Segundo Rubem Cesar Fernandes, 68 anos, antropólogo de origem presbiteriana, preso em 1962, antes do golpe, por participar de movimentos estudantis, os evangélicos carregam uma mancha em sua história por convidar a repressão a entrar na Igreja e perseguir os fiéis. “Os católicos não fizeram isso. Não é justificável usar o poder militar para prender irmãos”, diz ele, considerado “elemento perigoso” no templo que frequentava em Niterói (RJ). “Pastores fizeram uma lista com 40 nomes e entregaram aos militares. Um almirante que vivia na igreja achava que tinha o dever de me prender. Não me encontrou porque eu estava escondido e, depois, fui para o exílio”, conta o hoje diretor da ONG Viva Rio.

O protestantismo histórico no Brasil também registra um alto grau de envolvimento de suas lideranças com a repressão. Em sua tese de pós-graduação, defendida na Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), Daniel Augusto Schmidt teve acesso ao diário do irmão de José, um dos delatores de Anivaldo Padilha, o bispo Isaías. Na folha relativa a 25 de março de 1969, o líder metodista escreveu: “Eu e o reverendo Sucasas fomos até o quartel do Dops. Conseguimos o que queríamos, de maneira que recebemos o documento que nos habilita aos serviços secretos dessa organização nacional da alta polícia do Brasil.” Dono de uma empresa de consultoria em Porto Alegre, Isaías Sucasas Jr., 69 anos, desconhecia a história da prisão de Padilha e não acredita que seu pai fora informante do Dops. “Como o papai iria mentir se o cara fosse comunista? Isso não é delatar, mas uma resposta correta a uma pergunta feita a ele por autoridades”, diz. “Nunca o papai iria dedar um membro da igreja, se soubesse que havia essas coisas (torturas).” Em 28 de agosto de 1969, um exemplar da primeira edição do jornal “Unidade III”, editado pelo pai do ministro da Saúde, foi encaminhado ao Dops. Na primeira página, há uma anotação: “É preciso ‘apertar’ os jovens que respondem por este jornal e exigir a documentação de seu registro porque é de âmbito nacional e subversivo.” Sobrinho do pastor José, o advogado José Sucasas Hubaix, que mora em Além Paraíba (MG), conta que defendeu muitos perseguidos políticos durante a ditadura e não sabia que o tio havia delatado um metodista. “Estou decepcionado. Sabia que alguns evangélicos não faziam oposição aos militares, mas daí a entregar um irmão de fé é uma grande diferença.”

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Nenhum religioso, porém, parece superar a obediência canina ao regime militar do pastor batista Roberto Pontuschka, capelão do Exército que à noite torturava os presos e de dia visitava celas distribuindo o “Novo Testamento”. O teólogo Leonildo Silveira Campos, que era seminarista na Igreja Presbiteriana Independente e ficou dez dias encarcerado nas dependências da Operação Bandeirante (Oban), em São Paulo, em 1969, não esquece o modus operandi de Pontuschka. “Um dia bateram na cela: ‘Quem é o seminarista que está aqui?’”, conta ele, 21 anos à época. “De terno e gravata, ele se apresentou como capelão e disse que trazia uma “Bíblia” para eu ler para os comunistas f.d.p. e tentar converter alguém.” O capelão chegou a ser questionado por um encarcerado se não tinha vergonha de torturar e tentar evangelizar. Como resposta, o pastor batista afirmou, apontando para uma pistola debaixo do paletó: “Para os que desejam se converter, eu tenho a palavra de Deus. Para quem não quiser, há outras alternativas.” Segundo o professor Maurício Nacib Pontuschka, da Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo, seu tio, o pastor-torturador, está vivo, mas os dois não têm contato. O sobrinho também não tinha conhecimento das histórias escabrosas do parente. “É assustador. Abomino tortura, vai contra tudo o que ensino no dia a dia”, afirma. “É triste ficar sabendo que um familiar fez coisas horríveis como essa.”

Professor de sociologia da religião na Umesp, Campos, 64 anos, tem uma marca de queimadura no polegar e no indicador da mão esquerda produzida por descargas elétricas. “Enrolavam fios na nossa mão e descarregavam eletricidade”, conta. Uma carta escrita por ele a um amigo, na qual relata a sua participação em movimentos estudantis, o levou à prisão. “Fui acordado à 1h por uma metralhadora encostada na barriga.” Solto por falta de provas, foi tachado de subversivo e perdeu o emprego em um banco. A assistente social e professora aposentada Tomiko Born, 79 anos, ligada a movimentos estudantis cristãos, também acredita que pode ter sido demitida por conta de sua ideologia. Em meados dos anos 60, Tomiko, que pertencia à Igreja Evangélica Holiness do Brasil, fundada pelo pai dela e outros imigrantes japoneses, participou de algumas reuniões ecumênicas no Exterior. Em 1970, de volta ao Brasil, foi acusada de pertencer a movimentos subversivos internacionais pelo presidente da Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor, onde trabalhava. Não foi presa, mas conviveu com o fantasma do aparelho repressor. “Meu pesadelo era que o meu nome estivesse no caderninho de endereço de alguma pessoa presa”, conta.

Parte da história desses cristãos aterrissará no Brasil na terça-feira 14, emaranhada no mais de um milhão de páginas do Projeto Brasil: Nunca Mais repatriadas pelo Conselho Mundial de Igrejas. Não que algum deles tenha conseguido esquecer, durante um dia sequer, aqueles anos tão intensos, de picos de utopia e desespero, sustentados pela fé que muitos ainda nutrem. Para seguir em frente, Anivaldo Padilha trilhou o caminho do perdão – tanto dos delatores quanto dos torturadores. Em 1983, ele encontrou um de seus torturadores em um baile de Carnaval. “Você quis me matar, seu f.d.p., mas eu estou vivo aqui”, pensou, antes de virar as costas. Enquanto o mineiro, que colabora com uma entidade ecumênica focada na defesa de direitos, cutuca suas memórias, uma lágrima desce do lado direito de seu rosto e, depois de enxuta, dá vez para outra, no esquerdo. Um choro tão contido e vívido quanto suas lembranças e sua dor.  

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Fonte: Revista IstoÉ, Edição 2170, 15/06/2011. 

RECUPERANDO A BELEZA DA AMIZADE


      Hoje fui acordada com uma mensagem no meu celular que dizia exatamente assim: “Amigo é um anjo que nos ajuda a ficarmos de pé quando nossas asas têm problemas e já não conseguem voar, por isso te digo, tenho você como minha amiga”. Confesso que essa frase me trouxe certa perturbação e me deixou por um longo tempo muito, mas muito pensativa.
      Preocupa-me a noção que muitas pessoas têm acerca da amizade. Apesar de gentil e aparentemente atraente, essa frase me transporta para uma realidade dolorosa e bem comum entre muitas pessoas: o falso conceito de amizade.
      Vivemos numa era de modernidade, em que o computador, os celulares, infelizmente, têm tomado um espaço bem maior na vida das pessoas do que realmente deveria. E muitos têm trocado o calor de um abraço, a ternura de um toque, por teclas, mensagens e e-mails.
       Não tenho absolutamente nada contra amizades virtuais, desde que a excessiva distância seja o único impedimento para uma proximidade real. Não podemos permitir que nossas ocupações, nosso comodismo ou qualquer outra coisa dessa natureza, nos impeçam de nos relacionar, de tocar as pessoas, de senti-las.
       O que mais me deixou perplexa é que a mesma pessoa que me enviou essa frase, e que me colocou num padrão tão elevado de um relacionamento (a amizade), é muito distante de mim. Vivi acontecimentos importantes, dolorosos, e inesquecíveis como perdas, desemprego, perseguições e em nenhuma dessas ocasiões, tive-a por perto.
     Precisei fazer escolhas, tomar decisões, trilhar caminhos importantíssimos na minha caminhada cristã e, mais uma vez, esse meu pretenso amigo esteve absolutamente alheio e ausente. O que me leva a crer que muitas vezes falamos de coisas que não sabemos e nem sequer sentimos.
       A Bíblia é a nossa regra de pratica e fé. E é nela que existem exemplos de homens e mulheres, vivendo uma autêntica relação de amizade. Amizades essas que deveriam nos servir de referencial. Davi e Jônatas, por exemplo, experimentaram em sua relação de amor, o mais alto grau de serviço, desprendimento e confiança, elementos tão essenciais numa amizade. Tanto que o próprio Davi, saudoso, disse que melhor era o amor desse amigo do que o amor de muitas mulheres... 
        E o que dizer de Noemi e Rute? Esta última mostrou fidelidade e misericórdia quando decidiu seguir sua sogra. Atributos estes tão em falta em tantos relacionamentos atuais. As pessoas, mesmo as que se dizem amigas, abandonam-se e se traem-se muito facilmente.
Paulo, o apóstolo, não tinha apenas cooperadores ao seu lado, mas também amigos. Amigos como Priscila e Áquila, que arriscaram suas próprias vidas em seu favor. E isso é próprio do amor. Verdadeiros amigos se arriscam. Jônatas que o diga!
        Jesus um dia elevou seus discípulos a amigos e fez jus a essa condição, porque os amou até o fim. Que possamos olhar para esses exemplos e para o exemplo maior. Que possamos ponderar nossas palavras, atentar para nossas atitudes, e rever com muita atenção o nosso conceito de amizade.
          Que Deus em Cristo nos abençoe e nos faça amigos legítimos e fieis.
Silvana Sales

10 de junho de 2011

A DECADÊNCIA DA RELIGIÃO NA HOLANDA

   

  Usando um modelo de progressão matemática, um levantamento divulgado há algumas semanas durante um encontro da American Physical Society, mostra que as  pessoas que seguem alguma religião vão praticamente deixar de existir em alguns países. Um destes seria a Holanda, onde 70% dos habitantes não teriam religião alguma até 2050. Hoje, esse grupo é de 40% da população.
       Confirmando esta tendência, li há pouco tempo que vários templos religiosos na Holanda estão sendo reutilizados ou simplesmente demolidos. Atualmente, existem 4.200 templos na Holanda, dos quais cerca de 1400 será fechado até 2020, 900 foram abandonados desde 1970. Segundo o professor Peter Nissen, da Universidade de Nijmegen, um terço dos 900 prédios que deixaram de ser utilizados, foi demolido. Outro terço foi assimilado por outras culturas, e o restante foi destinado pelos novos proprietários para funções tais como escritórios, restaurantes, bares e apartamentos.
        Tudo isto em um país que teve grandes teólogos e alguns dos movimentos espirituais mais importantes do Cristianismo. Lembremos da devotio modena, movimento que, segundo Johan Huizinga, criou na Holanda uma forte e convencional forma para a vida devota. Desta tendência surgiu uma das obras cristãs mais conhecidas no mundo: A imitação de Cristo, de Tomás de Kempis.  
        No século XVI a Holanda abrigou o desenvolvimento da "reforma radical", através da liderança de Menno Simons. Ainda hoje os seus seguidores, chamados de menonitas, formam diversas comunidades no mundo, inclusive com forte presença na América do Sul. Poderíamos ainda citar o humanista Erasmo de Roterdã, autor do famosa obra Elogio da loucura, em que fazia severas críticas ao clero católico.
        No século seguinte a Holanda acolheria um vigoroso debate sobre a teologia cristã, através das ideias de Jacob Armínio. A perseguição implacável dos calvinistas aos seguidores de Armínio, não deveria turvar os nosso olhos para uma verdade: a religião era muito importante para o povo holandês.   
        O prestígio dos cristãos ainda era grande no início do século XX, a ponto do teólogo Abraham Kuyper se tornar primeiro-ministro dos Países Baixos entre 1901 e 1905. Contudo, aos poucos todo o fervor religioso foi se desvanecendo. A Holanda se tornou um país de céticos e ateus.
        Tudo isso nos leva a algumas reflexões. Primeiramente, precisamos considerar que a obra de Deus deve ser realizada por cada geração no poder do Espírito. Quando cessa o avivamento, ele acaba virando um monumento frio. A geração seguinte não pode viver das bençãos derramadas sobre outrem no passado.
        Outrossim, não podemos substituir a comunhão com Deus e a fidelidade à sua palavra por modismos "teológicos". Assim, não devemos ser ingênuos a ponto de acharmos que se marcharmos sobre a cidade dizendo que ela é do Senhor, ela prontamente o será. Precisamos, sim, buscarmos a Deus de forma consagrada para que o mundo veja uma igreja santificada e atuante.
        Finalmente, devemos confiar que a igreja não é um artifício meramente humano. Trata-se de uma obra prima, como ressaltou o historiador Paul Veyne. Ocorre que ela não é apenas humana, ela é divina. Assim, Deus cuida bem dela. Ela começou cheia do Espírito no Oriente, se consolidou na Europa e acabou conquistando territórios na América. Não sabemos em qual lugar ela florescerá, mas sabemos que ela não morrerá, pois "as portas do inferno não prevalecerão contra ela".
                                                                                       George Gonsalves                 



2 de junho de 2011

PROTESTO E MANIFESTAÇÃO CONTRA A PLC 122 EM BRASÍLIA


Saiba como foi o protesto e manifestação contra a PLC 122 organizada pelo Pastor Silas Malafaia em Brasília
A última quarta-feira, primeiro de junho, foi considerada um marco para os ativistas pró-família, uma manifestação contra a PLC 122 organizada pelo Pastor Silas Malafaia em Brasília reuniu milhares de evangélicos, católicos e pessoas que não concordam com bandeiras como a PLC 122, legalização do aborto e maconha e o kit gay. O evento foi denominado como Marcha pela Família.
O foco principal da manifestação foi a PLC 122, polêmica lei anti-homofobia que é constantemente contestada por líderes religiosos que acreditam que a mesma poderá criminalizar o direito de expressão de quem não é a favor do homossexualismo. Entre os políticos que participaram estavam João Campos (PSDB-GO), Ronaldo Fonseca (PR-DF), Jair Bolsonaro (PP-RJ) e Anthony Garotinho (PR-RJ), além dos senadores Marcelo Crivella (PR-RJ), Magno Malta (PR-ES) e Walter Pinheiro (PT-BA). Entre os evangélicos que estavam presente, houve a participação de diversos cantores e pastores de todo o Brasil, além do próprio Pastor Silas Malafaia, organizador da manifestação pacífica.
Os manifestantes exibiam cartazes com dizeres como “Diga não a PL 122″, “Daqui a pouco vão dizer que a Bíliba é homofóbica”, “I love my family” e “Pela união entre o homem e a mulher” e gritavam palavras de ordem. No palanque o Pastor Silas Malafaia foi enfático afirmando que “Marta Suplicy pensa que crente é otário” e criticou a decisão do Supremo Tribunal Federal que reconheceu a união gay no Brasil: “O STF rasgou a Constituição”, o líder ainda completou dando sua opinião sobre a PLC 122: “O projeto de lei é inconstitucional. Lei contra a homofobia já existe, isso é conversa para dar privilégio a uma minoria” afirma. Em dado momento o Pastor rasgou uma cópia da PLC 122 no palanque, levando o público ao delírio.
Já o Senador Magno Malta acusou o Senado de querer criar um “terceiro sexo” dando preferência aos homossexuais: “Se Deus criou macho e fêmea, não vai ser o Senado que vai criar um terceiro sexo com uma lei. É preciso que eles [homossexuais] entendam que o anseio grotesco de uma minoria não vai se fazer engolir”, acredita. Já o deputado federal e ex Governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho foi mais polido em seus comentários: “Eles [os participantes da marcha] amam a todas as pessoas, só que não concordam com o pecado de algumas,” disse. Outro Senador que também se pronunciou foi o evangélico Marcelo Crivella, da Igreja Universal do Reino de Deus: “Nunca vi a igreja evangélica tão unida, deixando de lado as denominações em prol do reino de Deus” conclui.
Números
A quantidade de manifestantes é contraditória, a imprensa em geral fala entre 25 e 50 mil participantes, a polícia militar estima 20 mil e os organizadores falam entre 70 e 80 mil. O Pastor Silas Malafaia esperava cerca de 30 mil pessoas na Marcha pela Família, diversas caravanas foram até o local para protestar.

FONTE: Gospel Notícias

1 de junho de 2011

LIVROS SOBRE O PROTESTANTISMO NO BRASIL

A Editora Novos Diálogos lançou em março último a Coleção Protestantismo e Sociedade, que reúne textos originalmente escritos como teses e dissertações que retratam interfaces do protestantismo com diferentes dimensões da vida social do país. Pondo em evidência os diversos percursos dessa relação, revisitam analiticamente o passado numa perspectiva ousada de reinventar o presente. Os pimeiros livros lançados foram:

Relações e Privilégios: Estado, secularização e diversidade religiosa no Brasil.
Autor: Alexandre Brasil Fonseca.


Fé na Revolução: Protestantismo e o discurso revolucionário brasileiro (1961-1964).
Autor: Joanildo Burity. 
 
 
Sim a Deus, Sim à Vida: Evangélicos redescobrem sua cidadania
Autor: Ziel Machado.


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