31 de maio de 2011

ORIGENS DAS DENOMINAÇÕES

LIVRO: AS ORIGENS SOCIAIS DAS DENOMINAÇÕES CRISTÃS
AUTOR: H. RICHARD NIEBUHR
ED.: ASTE/CIÊNCIAS DA RELIGIÃO, 1992, 184p.


       Um dos livros que mais trouxeram impacto à minha vida. Richard Niebuhr, um dos mais importantes teólogos americanos do século XX, trata de desnudar as influências dos aspectos sociais e econômicos nas denominações cristãs. Logo no primeiro parágrafo, ele põe o dedo na ferida: "O cristianismo tem freqüentemente obtido aparente sucesso ao ignoraros preceitos do seu fundador. Como instituição interessada em autopreservar-se e em ganhar poder, a Igreja tem às vezes achado a mensagem da cruz tão impópria quanto a têm achado grupos nacionais e econômicos" (p. 13).
        Para Niebuhr, o denominacionalismo enfraquece a mensagem da Igreja perante o mundo, pois elas surgem, basicamente, não por diferenças teológicas, mas por compromissos econômicos, como no caso da divisão ocorrida nas igrejas americanas por causa da escravidão.
      Ele também aborda o conceito de "igreja dos deserdados", comunidade de pobres que almejam viver um cristianismo autêntico, revolucionário. Ocorre, que o sucesso econômico acaba por minar o idealismo inicial, e elas acabam se amoldando à sociedade em que vivem. Passaram por este caminho os metodistas e os quakers, por exemplo.  
      Um livro instigante e perturbador, e talvez por isso mesmo, necessário. Nos ajuda a lançar um olhar penetrante para a história da igreja, sem o triunfalismo que quase sempre a acompanha. 
George Gonsalves
     

29 de maio de 2011

O SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL E O SUPREMO LEGISLADOR

Há alguns dias, me deparei com as seguintes palavras: “Hoje acordei mais brasileiro... Agora posso cantar o hino nacional de uma maneira diferente...”. Tal frase fora dita por um homem assumidamente homossexual numa entrevista, após o resultado unânime do Supremo Tribunal Federal sobre a união estável entre homossexuais, dando-lhes entre outros direitos, plena liberdade para adoção de filhos, em um dia que ele chamava com muito orgulho de “histórico”.
Minha sincera preocupação é exatamente com esses a quem eu considero a maior vítima de toda essa história - as crianças! Desde o princípio, o Criador, com muita propriedade, estabeleceu o modelo: pai, mãe, filhos... Dois pais? Duas mães? Quanta confusão!
Por mais que se diga: é o final dos tempos, que nos lembrem das afirmações bíblicas de que o mundo vai de mal a pior, nós, servos de Deus, nunca nos sentiremos “confortáveis” ou “conformados” diante do mal e do pecado.  Fatos dessa natureza, acredito, ainda conseguirão nos deixar perplexos.
Fica aqui minha tristeza maior. Não pelo reconhecimento de direitos, mas pelas consequências desses mesmos direitos. Fala-se muito do que dizem as pessoas, sejam elas favoráveis ou não, mas pouco, ou melhor, nada se fala do que Deus diz dessas decisões, o que evidencia um absoluto descaso dos homens ante o Supremo Legislador.
Enquanto aquele homem acordou mais brasileiro, eu, embora triste, posso dizer que acordei mais cidadã dos céus, entendendo melhor o apóstolo Paulo quando disse: “A nossa cidade está nos céus, donde também esperamos o nosso Salvador, O Senhor Jesus Cristo...” (Filipenses 3:20).
Silvana Sales

17 de maio de 2011

ANABATISTAS: SILÊNCIO, SUSSURRO E VOZ NA HISTÓRIA


Anabatistas condenados à morte por afogamento
"Diga-se agora que o valor da tentativa [dos anabatistas] não deve ser julgado à luz de sua contribuição para a história. Eles assumiram sua postura à luz da eternidade, independentemente do que poderia ou não acontecer na história."
Roland H. Bainton

Quando consultamos livros didáticos em nosso país, percebemos um silêncio eloquente: o anabatismo do século XVI é praticamente ignorado. Este silêncio se transforma em sussurro quando consultamos livros acadêmicos em português sobre a Reforma Protestante (refiro-me ao anabatismo pacifista, contrário à revolta ocorrida em Münster). Muito pouco se diz sobre àquele que é "um dos mais importantes movimentos de restauração de toda a história do cristianismo" (ALLEN e HUGHES, p. 129). Um exemplo claro disso é o livro do renomado historiador francês Jean Delumeau Nascimento e afirmação da Reforma, que em suas quase quatrocentas páginas, dedica apenas algumas linhas sobre o anabatismo.

Há várias razões para isso. Uma delas pode ser percebida por um conhecido jargão dos historiadores: "a história é escrita pelos vencedores". Entre os protestantes, luteranos e calvinistas alcançaram o poder político e econômico em vários países. Sendo assim, trataram de publicar livros de seus principais autores e de contar a história a partir de sua perspectiva. Por outro, os anabatistas foram perseguidos tanto em território católico como protestante. Basta lembrarmos que o líder anabatista Felix Manz foi morto no Cantão de Zurique, então território protestante, no ano de 1527, sob o olhar complacente do pastor Zuínglio. Centenas e talvez milhares foram mortos pela inquisição católica. Eles se negaram a associar-se a príncipes e reis e tiveram pouca força econômica. Assim, viveram sua fé "na periferia da história", como afirmou John Driver.

Felizmente, o interesse pela história dos anabatistas vem crescendo. Talvez, porque "os protestantes do protestantismo" (OLSON, p. 426) defendiam ideias que se tornaram caras ao mundo moderno: tolerância, pacifismo e senso de comunidade. Queriam viver nos moldes estabelecidos por Jesus. Abaixo relaciono algumas obras que estudam o anabatismo ou "os radicais", como também foram chamados:

HISTÓRIA GERAL:
DICKENS, A. G. A Reforma na Europa do século XVI: Verbo.
ELTON, G. R. A Europa durante a Reforma (1517-1559): Presença/Martins Fontes
FRIEDRICH, Otto. O fim do mundo: Record.
HILL, Christopher. O mundo de ponta-cabeça: idéias radicais durante a Revolução Inglesa de 1640: Cia. das Letras.


HISTÓRIA DA IGREJA:
GONZALEZ, Justo L. Uma história ilustrada do cristianismo - vol. 6 - A era dos reformadores: Vida Nova.
LATOURETTE, Kenneth Scott. Uma história do cristianismo - vol. 2: Hagnos.
LINDBERG, Carter. As reformas na Europa: Sinodal.
CLOUSE, Robert G., PIERARD, Ricahrd V. & YAMAUCHI, Edwin M. Dois reinos: Cultura Cristã.
OLSON, Roger. História da teologia cristã: Vida.
WALKER, Wiliston. História da igreja cristã: Aste.

HISTÓRIA E DOUTRINA ANABATISTA:
ALLEN, C. Leonard & HUGHES, Richard T. Raízes da restauração - a gênese histórica do conceito de volta à bíblia: Vida Cristã.
BENDER, Harold S. La visión anabautista: Clara-Semilla.
______________& John Horsch. Menno Simons - sua vida e escritos. s/e.
BRACHT, Thielman J. van. O espelho dos mártires (condensado): Publicadora Menonita.
DRIVER. John. Contra a corrente - ensaios de eclesiologia radical: Cristã Unida.
___________ La fe en la periferia de la historia: Semilla-clara.
DURNBAUGH, Donald. F. La iglesia de creyentes - historia y carácter del protestantismo radical: Semilla-Clara.
DYCK, Cornelius. Uma introdução à história menonita: Cristã Unida.
ESTEP. William R. Revolucionarios del siglo XVI - historia de los anabautistas: Casa Bautista de Publicaciones.
GARCIA, Raúl O. Porque sou cristão evangélico anabatista: Editora Cristã Unida.
GEORGE, Timothy. Teologia dos reformadores: Vida Nova.
JACKSON, DAVE e NETA. Nas chamas por Cristo: Moriá.
LEDERACH, Paul M. Uma terceira opção - diálogos sobre a fé anabatista/menonita: Cristã Unida.
KLAASSEN, Walter (ed.). Selecciones teológicas anabautistas: Herald Press.
PEREIRA, José dos Reis. Breve história dos batistas: Juerp.
SIMONS, Menno. "Confissão" e O novo nascimento: Publicadora Menonita.
STOLL, Joseph. Não vim trazer paz: Publicadora Menonita.
VERNON, Louise A. A igreja secreta: Livraria Cristã Unida.
WILLIAMS, George H. La reforma radical. Fondo de Cultura Económica.
YODER. John. A política de Jesus: Sinodal.


ARTIGOS:
ESTEP. William R. Historia de los anabautistas. (disponível em www.iglesiareformada.com/index.html)
MASKE, Wilson. Os menonitas e a construção do novo reino: Editora da UFPR. Revista História: Questões e Debates, nº 28.
NASCIMENTO, Luis Felipe Medes do. A Reforma vista por olhar marginal (na Alemanha): Revista Theos - 6ª edição, v. 5, nº 1.

FILMES:
Os radicais.
Amish grace.
George Gonsalves

14 de maio de 2011

DEUS NÃO ESTÁ NO NOSSO CONTROLE


por George Gonsalves


"Precisamos de uma teologia que não ponha Deus num cercadinho das coisas religiosas. Deus fala, se ouvimos. Deus ouve, se falamos. Deus se manifesta, se queremos."
Israel Belo de Azevedo

Há algum tempo consultei um livro de Teologia Sistemática, um dos mais volumosos publicados no Brasil, com quase duas mil páginas. Estava ansioso para estudar sobre um determinado tema bíblico. O autor foi tão profundo naquele assunto que comprei o livro. Ocorre, que eu descobri com o tempo que a obra, embora erudita, não era ampla. Ou seja, não tratava de muitos assuntos.

Depois senti necessidade de um livro de teologia sistemática que abordasse o maior número de temas possíveis. Então, encontrei um que abordava mais temas que o primeiro. Para completar na sua contra capa tinha os seguintes dizeres: completa, plena, absoluta, cabal, integral, suficiente... Bom, alguns dos primeiros assuntos que pesquisei simplesmente não eram sequer comentados pelo autor. Descobri que algumas de minhas preocupações teológicas não eram as suas. Mesmo que fosse, ele não poderia esclarecer todas as minhas dúvidas, só Deus pode.

Na verdade nenhum teólogo pode responder a todas as questões existenciais. Simplesmente, porque somos finitos e Ele, infinito. Como disse Wayne Grudem: "Não só não é verdade que jamais poderemos compreender plenamente a Deus; é verdade também que jamais poderemos compreender plenamente nem mesmo uma só coisa acerca de Deus (Teologia Sistemática, Ed. Vida Nova, p.102). Ou como disse o teólogo batista Augustus H. Strong: "Aconteça o que acontecer com as ciências da natureza e do homem, nunca se chegará a um conhecimento exaustivo da ciência de Deus (Teologia Sistemática, Ed. Hagnos, p. 86). E ainda Calvino, que sentenciou que toda doutrina da Escritura excede, em sua sublimidade, ao intelecto humano (Romanos, Ed. Paracletos, p. 417).

Se é asssim, porque ainda há tanta teimosia em se falar daquilo que não se sabe. Sim, reformados e pentecostais continuam a tentar explicar coisas que o próprio Deus não esclareceu em sua palavra. Há algum tempo ouvi um pastor dizer que ao chegar ao céu admitia que Deus poderia lhe corrigir em uma única doutrina, que poderia não ter ensinado corretamente.

Alguns querem que Deus esteja sob seu controle. Todas as suas ações são guiadas pelo Senhor. Tudo o que falam é inspirado pelos céus. Mas sabemos que o Todo-poderoso é soberano e não precisa comunicar todos os seus atos a quem quer que seja. Para o apóstolo Pedro, que queria saber sobre João, disse: "Se eu quero que ele permaneça até que eu venha, que te importa? Quanto a ti, segue-me (João 21:22). Depois de falar sobre desígnios maravilhosos do Senhor, Paulo irrompeu em louvor: "Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos" (Rm. 11:33).

Precisamos reconhecer que nenhum homem pode dar conta de todos os desígnios de Deus. Ele fala muita coisa que não ouvimos e faz muita coisa que não sabemos. Por isto, o profeta Ezequiel foi sábio quando foi perguntado se ossos poderiam reviver. Ele disse: "Senhor Deus, tu o sabes" (Ez. 37:3).





BIOGRAFIA DE WESLEY

LIVRO: JOÃO WESLEY - SUA VIDA E OBRA
AUTOR: MATEO LELIÈVRE
EDITORA VIDA, 1997, 373p.


Biografia de um dos grandes evangelistas da história moderna da igreja. Segundo estimativas, o inglês John Wesley (1703-1791) viajou mais de 600.000 km (o que daria para dar mais de uma volta completa no planeta) nos seus cinquenta anos de ministério. Teria também proferido cerca de 40.000 sermões. Um fenômeno de vigor e dedicação. Parece que eram verdadeiras as palavras que um dia pronunciou: "Entre mim e a ociosidade existe um divórcio total" (p. 287).

A obra de Wesley e a dos metodistas (movimento que ajudou a fundar) foi estudada por inúmeros historiadores não cristãos. Inclua-se aí, um dos maiores expoentes da história social, o inglês E.P. Thompson, que faz menção aos metodistas em dois livros clássicos da historiografia do século XVIII: Costumes em comum e Formação da classe operária inglesa.

Aqui, o autor relata de forma resumida (o grande problema do livro) alguns dos principais eventos de sua vida como: a controvérsia com Whitefield, seu protesto contra a escravidão e sua participação no avivamento ocorrido no século XVIII. Há uma pequena introdução sobre a Inglaterra do início do século XVIII. No final, há um capítulo dedicado à repercussão da obra dos metodistas naquele país e nos Estados Unidos, assim como na historiografia inglesa.

Excelente. Deve ser lido, mesmo por aqueles que não comungam de sua teologia.

George Gonsalves

6 de maio de 2011

ENTREVISTA COM RICHARD FOSTER

"A superficialidade é a maldição do nosso tempo"

 
Trecho da entrevista do pastor Richard Foster, um dos líderes evangélicos mais destacados de nosso tempo. Foster, celebrado autor de livros voltados ao público cristão – dos quais o mais conhecido é o best-seller Celebração da disciplina, lançado em 1978 –, também é fundador de Renovare, organização que, como o nome já sugere, promove a renovação espiritual da liderança e da Igreja. Um movimento internacional, que estimula o discipulado e a formação cristã em países como Estados Unidos, Reino Unido, Irlanda, Coreia do Sul e Brasil.

Foster baseia seu trabalho na defesa de práticas cristãs como santidade, disciplina e reflexão. Nada de novo – mas o que chama a atenção é a simplicidade e a clareza de suas ideias. “As disciplinas espirituais são para todos os cristãos. Não há como avançar como discípulo de Cristo sem uma formação espiritual adequada”, pontifica em seus livros, palestras e mensagens. Ele acaba de finalizar mais uma obra, Sanctuary of the soul (Santuário da alma), que pretende lançar durante sua visita ao Brasil em maio e tem tudo para se tornar mais um clássico da espritualidade cristã. CRISTIANISMO HOJE ouviu Richard Foster em sua casa, em Denver, no Colorado (EUA), poucas semanas antes de sua viagem ao Brasil:

CRISTIANISMO HOJE – O que são disciplinas espirituais?
RICHARD FOSTER – As disciplinas espirituais são simplesmente uma parte da vida cristã normal. Através dessas disciplinas, aprendemos a colocar nosso corpo e nossa mente diante de Deus, a fim de que o Senhor promova sua obra em nossas vidas. É o que a Palavra de Deus chama de sacrifício vivo. Jamais poderíamos ter amor, alegria, paz, benignidade, bondade e longanimidade sem a graça do Senhor. E essas coisas promovem o crescimento da alma, levando-nos a assumir uma nova personalidade, um caráter cristão.

Sacrifícios e disciplinas parecem, à primeira vista, difíceis de atingir para o crente comum...
Não. A disciplina espiritual é para todos os cristãos. Ela nos move para a vida abundante que Jesus promete. Não há como avançar como discípulo de Cristo sem uma formação espiritual adequada. O detalhe é que não há valor nas disciplinas em si. Em nenhuma delas. Elas não nos rendem pontinhos extras com Deus. Estamos falando de coisas que os crentes precisam fazer para viver a simples vida cristã. Oração, meditação, estudo e jejum fazem parte da vida sob a graça. E nós não somos apenas salvos pela graça; nós vivemos pela graça!

Qual a diferença entre disciplinas cristãs e boas obras? 
As disciplinas não são obras. As disciplinas não têm nada a ver com as obras, pois elas não produzem justificação alguma. Portanto, nunca devemos pensar nas disciplinas como meio para ganhar algo. Dito de outra forma, as disciplinas espirituais nos trazem a justiça do Reino de Deus de uma maneira indireta. Elas são esforço. Como disse Jesus, nós nos esforçamos para entrar pela porta estreita – ou, nas palavras do apóstolo Paulo, devemos nos empenhar na piedade. Nós simplesmente fazemos as coisas com nossas próprias mãos e o Senhor usa isso para operar maravilhas em outros seres humanos, pelo seu poder. Essas coisas levam ao crescimento da alma, e nós começamos a assumir uma nova personalidade, um caráter cristão.Aprendemos a amar nossos inimigos, e assim por diante. Isso é para todos os cristãos. É a herança comum do povo de Deus.

Disciplina espiritual não é um tema com tanto apelo entre os cristãos de hoje. Como o senhor explica, então, o enorme sucesso de seu livro Celebração da disciplina, que já vendeu mais de um milhão de cópias?
Só posso entender que foi a graça de Deus que fez tudo acontecer da forma como aconteceu. Senão, como umas poucas anotações em um pedaço de papel poderiam ter esse tipo de efeito? Celebração da disciplina foi escrito para todos aqueles que ficaram decepcionados com as superficialidades de todos os aspectos da cultura moderna, incluindo o religioso. Acho que o livro saiu justamente no momento em que havia um sentimento genuíno de que o que estávamos fazendo no ministério não funcionava mais. Além disso, líderes foram caindo como moscas devido a falhas morais, e as pessoas estavam ansiando por algo mais substancial. O livro veio trazer uma proposta de vida espiritual mais profunda e comprometida. Havia também desejo de se resgatar um verdadeiro diálogo sobre o crescimento da alma, que havia sido esquecido.

Que diálogo é esse?
Para a maioria dos crentes, houve algo muito espiritual e especial na Igreja primitiva – e, depois, isso praticamente desapareceu, talvez com um pequeno lampejo na Reforma. Então, eu tentei, com Celebração da disciplina, levar as pessoas a uma grande discussão sobre o crescimento da alma, uma discussão que tem ganhado espaço ultimamente. Muitos editores têm trabalhado para desenvolver uma literatura que realmente mova as pessoas para frente. Ninguém está mais interessado nesse tipo de religiosidade superficial, que aliás é bastante comum no nosso cenário americano.

Seu livro já foi traduzido para mais de 20 idiomas. Essa religiosidade superficial é um problema generalizado ou afeta principalmente a Igreja ocidental e urbana?
Penso que a superficialidade é a maldição do nosso tempo, e isso tem sido amplamente reconhecido por cristãos de toda parte, em todo o mundo. O grande desafio hoje, na cultura ocidental, é a distração. As pessoas estão totalmente distraídas e, portanto, não conseguem se focar. Com a internet e as infinitas opções de entretenimento de hoje, há várias maneiras diferentes de manter a mente das pessoas em constante movimento, a fim de que não tenham que refletir ou pensar – e, claro, as igrejas fazem coro com essa cultura. É por isso que a solidão e o silêncio estão entre as disciplinas espirituais mais importantes para o nosso tempo.

Em Rios de água viva, o senhor fala sobre seis tradições da espiritualidade cristã, dentre elas a santidade. Nestes tempos de relativismo, onde o pecado tem sido muito tolerado, a santidade foi deixada de lado?
Eu acho que a falta de santidade é mais evidente em nossos dias do que em épocas anteriores. Temos ensinado um evangelho que faz com que as pessoas não precisem viver uma vida de santidade e discipulado com Jesus. Temos pregado coisas do tipo: “Aceite certas verdades e você vai para o céu quando morrer”. Assim, o foco principal foi ficando no céu. Mas o Evangelho de Jesus enfatiza a santidade como condição imediata para a salvação – “Arrependei-vos, pois o Reino de Deus está próximo”. Então, precisamos ser lembrados de que a salvação é uma vida com Jesus, que começa agora, e continua até a morte, que é apenas uma pequena passagem desta vida para uma outra, eterna e melhor.

Grandes avivamentos da história, como o que ocorreu na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos no século 18, trouxeram mudanças positivas na sociedade, ao mesmo tempo em que abalaram a Igreja. Hoje, em nações forte de presença evangélica, como os EUA e o Brasil, movimentos espirituais parecem ficar circunscritos às paredes dos templos, quase sem nenhuma relevância social. Por que isso acontece?
Os primeiros seguidores de John Wesley falavam de uma santidade que promovia impacto social. William Penn disse: “A religião não nos leva para fora do mundo.Ela nos leva ao mundo eimpele todos os nossos esforços para consertar o mundo”. Recuperar esta ênfase é parte fundamental no processo de avivamento cristão. Nós nos esquecemos de que o envolvimento em uma guerra espiritual tem várias frentes ao mesmo tempo – ela acontece nos níveis pessoal, social e institucional, para citar apenas alguns. A proclamação do Evangelho inclui o que os reformadores chamavam de “mandato cultural”, ou seja, necessariamente deve ter impacto sobre a cultura em geral. Um avivamento certamento começa no indivíduo, mas também o leva para fora, a fim de interferir na vida dos outros. Basta pensar, por exemplo, no que aconteceria se os cristãos aprendessem a não mentir.Pense no tipo de mudança que isso poderia provocar em instituições empresariais, governamentais e em todas as instâncias. As implicações sociais da pregação do Evangelho têm que acontecer de alguma forma.Nós amamos a Deus e amamos ao nosso próximo; isso anda de mãos dadas. O III Congresso de Lausanne, que aconteceu ano passado na África do Sul, voltou a salientar que o evangelismo cristão deve sempre promover profundo impacto social.

Como promover um discipulado eficaz na sociedade de hoje?
O discipulado é uma característica da vida em comunidade. No caso do discipulado, ele é uma das expressões dessa vida comunitária. Falo de uma comunhão profunda, muito mais intensa do que as configurações normais das igrejas, onde as pessoas se encontram uma vez por semana, ou às vezes apenas uma vez por mês. Por isso, a essência do movimento Renovare é a criação de comunidades. Temos trabalhado para criar comunidades de pastores, líderes e leigos. Agora, desenvolver uma comunidade onde as pessoas amem e cuidem umas das outras leva um longo tempo.

O senhor fundou o movimento Renovare há quase 25 anos. Dos objetivos iniciais, quais foram realmente atingidos?
Tivemos três grandes objetivos no início. Em primeiro lugar, levantar um grande diálogo sobre a transformação da alma. Em segundo, criar um corpo de literatura que iria interagir com a grande tradição cristã de espiritualidade. Acho que fizemos isso muito bem. Nós produzimos uma série de textos e livros que foram publicados sobre o tema. É claro que outras pessoas que estão escrevendo nesta mesma área nos ajudaram muito. A terceira proposta era trabalhar duro para ancorar tudo isso com as Escrituras, porque os ensinamentos de formação espiritual, se feitos de qualquer maneira e sem os vínculos certos, podem levar a perigosas direções. Também tivemos três tipos diferentes de grupos em mente no nosso ministério. Um deles eram as pessoas na igreja que tinham fome e desejo pelas coisas espirituais. Um segundo grupo foi de pessoas que estavam decepcionadas com a igreja, mas eram cristãos e queriam viver para Deus. Acho que, com esses dois segmentos, fizemos muitas coisas boas. Em terceiro lugar, queríamos atingir pessoas que ansiavam por uma vida espiritual genuína, mas não eram cristãos. Com esse grupo, ainda não conseguimos fazer um bom trabalho.

Não existe o risco de promover uma espécie de ecumenismo teológico, misturando grupos de tendências espirituais inconciliáveis?
Não. O Renovare é altamente cristocêntrico. Temos uma cristologia muito bem definida e sustentada teologicamente. Nossa declaração diz: “Na dependência total de Jesus Cristo como meu Salvador sempre vivo, Mestre, Senhor e amigo, vou procurar a renovação contínua através de exercícios espirituais, dons espirituais e atos de serviço”. Isso não é uma declaração genérica, e não tem o menor denominador comum com o ecumenismo. Somos assumida e declaradamemente centrados em Jesus, e essa postura, por si só, tem uma enorme força de união para aqueles que mantêm o foco bem claro em um Jesus vivo, que atua em nós de todas as formas. Queremos ser como Jesus, e todos os nossos textos e mensagens apontam para uma formação espiritual em Cristo.

Qual o ambiente mais propício para a formação espiritual na igreja local? A escola dominical, a pregação, a mentoria ou os pequenos grupos?
Todas essas opções. A pregação é um dos principais meios de formação espiritual do povo. Agora, nós perdemos esse entendimento quando o pastor não conhece seu rebanho. O pastor é um diretor espiritual para a congregação. Então, precisa caminhar entre o povo, saber o nome das pessoas, conhecer as situações com que está lidando. A mentoria também tem esse aspecto de envolvimento. Já os pequenos grupos nutrem uma forma mais forte de carinho, amor e cuidado, e isso é um importante meio de formação espiritual.

A Igreja Evangélica, tanto na América quanto no Brasil, é regularmente chacoalhada por novos movimentos que causam grande impacto, promovem mudanças estruturais e comportamentais, mas depois desaparecem com seus erros e acertos. O que se pode fazer para preservar os ganhos espirituais dessas ondas?
Nosso povo tende a ser levado por modismos muito facilmente. É importante olhar sempre para frente, a longo prazo. Em qualquer situação, devemos sempre prestar atenção ao tipo de vida que cada movimento está produzindo. Quem não conhece a história fica muito impressionado quando aparece um desses movimentos de fé, mas eles sempre têm surgido ao longo dos tempos e, muitas vezes, não trazem nada de novo – é só algo mais que pode colaborar, e pronto. Se houver algum tipo de bem que um novo movimento possa trazer, ótimo, vamos incorporar isso. Mas ainda assim, não vamos ficar muito animados e abrir a guarda totalmente para o novo. Quero ver como tudo vai se desenrolar dentro dos próximos 50, cem anos...

O senhor disse que, no início de seu ministério, foi encorajado a ser “ministro de Cristo”, e não um “ministro do povo”. Qual é a diferença?
Isso foi no tempo em que eu estava tentando entender a identidade pastoral. Foi meu amigo Dallas Willard que me disse: “Você precisa decidir se é um ministro do povo ou um ministro de Cristo”. Ele sabia que, naquele início de carreira, eu estava sendo puxado em todas as direções por causa de expectativas do povo acerca do que um pastor deveria fazer.Se sou um ministro do povo, então eu sou controlado pelo que as pessoas pensam, sentem e dizem. Mas, se sou ministro de Cristo, então é o Senhor quem dá as cartas, e depois disso eu vou servir ao povo. Há um pequeno livro de Watchman Nee chamado Ministry to the house or to the Lord [“Ministério para a casa ou para o Senhor”], que aborda a mesma idéia básica. Quando você aprender a ministrar a Deus, então o trabalho que você faz, seja em casa ou na igreja, irá encontrar o lugar certo. Eu encorajo os pastores a aprender que, primeiro, devem ser ministros de Cristo. Então, seu trabalho entre o povo vai achar seu próprio lugar de forma natural.

Os pastores costumam se queixar de solidão. Isso já aconteceu em seu ministério? 
Eu sempre incentivo os pastores a encontrar uma pessoa a quem possam abrir o coração, compartilhar a vida. Certa vez, pedi a um pastor luterano que me ensinasse tudo o que sabia sobre oração. Esse foi o começo. Aquele homem tornou-se meu grande professor e mestre, e isso acabou desenvolvendo uma bela e duradoura amizade ao longo de quarenta anos.  Mesmo quando nos separamos geograficamente, sempre mantivemos uma comunicação regular.
Isso não tem que ser feito com alguém extraordinário; basta ser uma pessoa simples e madura. Todo pastor deve pedir a Deus que lhe mostre alguém assim. Ajuda se for alguém de fora da congregação, porque aí pode-se compartilhar de forma mais aberta problemas pessoas e ministeriais. Mas, é claro – as pessoas de dentro da congregação também podem amar e cuidar do líder. O pastor que vê nas ovelhas não apenas pessoas a quem têm de disciplinar, mas amigos, pode desenvolver na igreja boas e profundas amizades cristãs.

O senhor se refere com carinho a suas experiências de contato com a natureza no Colorado. O que isso significa para sua formação espiritual? 
Uma das razões pelas quais eu amo ir para as montanhas e os bosques é porque lá posso ver as obras do Pai na criação. A glória do Criador é revelada na criação, embora tudo tenha sido afetado pela queda do homem. Essa olhada na natureza, de vez em quando, faz com que nos desprendamos das coisas que temos de fazer e nos ensina que o mundo passa muito bem sem nós! Além disso, quando você trabalha com pessoas mal humoradas, ver mão do Pai na natureza mostra as coisas boas que ele faz para todos nós...

Dentre os autores cristãos contemporâneos, quais o senhor lê?
Lamento dizer que minha lista de autores contemporâneos é muito pequena. Grande parte das coisas que são escritas hoje só merece cinco ou 10 minutos. A maior parte da leitura que faço é de autores já falecidos. Eugene Peterson é um dos poucos autores atuais que eu acho que realmente vale a pena ler. Certamente, Dallas Willard é tremendamente útil. Mas, dentre os clássicos antigos, a Imitação de Cristo, por Thomas A. Kempis, não pode ser lido com rapidez – é preciso dedicar seis meses ou um ano para se aprofundar e captar a obra.Por isso, eu passo a maior parte do meu tempo com os escritores antigos, porque eles realmente alimentam a minha vida.

Qual é o estilo de vida que agrada a Deus?
Precisamos aprender a ter um pouco de paz e alegria, e não tentar viver uma vida espiritual muito tensa. Eu gostaria de dizer às pessoas que tudo que fizermos deve nos alegrar em Deus e nos levar a desfrutar da comunhão e amizade um do outro. A vida que agrada a Deus não vem por ira ou estresse, mas por um profundo amor ao Senhor, com Jesus e as pessoas que estão ao nosso redor.

Por Brandon O’Brien, editor assistente da revista Leadership
Fonte: http://cristianismohoje.com.br

5 de maio de 2011

LIVROS

LIVRO: FOGE, NICKY, FOGE!
AUTORES: NICKY CRUZ e JAMIE BUCKINGHAM
EDITORA: BETÂNIA, 1980, 288p.
 
   
 
          Na introdução deste livro, o evangelista Billy Ghaham chama a história de Nicky Cruz de "uma epopéia cristã de nossa era". Já o professor da Universidade de Notre Dame, Edward D. O'Connor, a descreve como, possivelmente, "a mais dramática do movimento Pentecostal". Seja como for, não há como não ser tocado por ela.
          Ela se passa no final da década de 50, no então violento bairro do Brooklin, em Nova Iorque. O porto-riquenho Nicky Cruz acaba se tornando um dos líderes de uma gangue do bairro: os "Mau-maus". Foi então que apareceu em sua vida alguém que ele descreveu como "um pregador magricela". Era David Wilkerson, pastor de uma igreja na Pensilvânia, que havia ido a Nova Iorque pregar o evangelho. Aquele encontro mudou para sempre a vida dos dois e de outras milhares de pessoas. Nicky e vários integrantes de gangues foram convertidos e um grande trabalho entre viciados foi iniciado na cidade.
          Neste livro a história é contada a partir da visão de Nicky. A versão de David Wilkerson foi contada no best seller A cruz e o punhal, que vendeu mais de 6 milhões de livros em vários países, e foi levada às telas. É uma narrativa escrita em tons dramáticos e emocionantes. Um testemunho do amor e do poder de Deus para transformar vidas. O exemplo corajoso e perseverante do pastor David Wilkerson é inspirador.
George Gonsalves

 

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