17 de setembro de 2011

CULTO: NEM IRREVERÊNCIA, NEM APATIA


     
   
por George Gonsalves

     Ofereceis sobre o meu altar pão imundo, e dizeis: Em que te havemos profanado? Nisto que dizeis: A mesa do Senhor é desprezível" (1:7). 
        De fato, em nossos dias percebemos que a forma do culto ao Senhor está sendo corrompida em muitos lugares. Contudo, precisamos ter em mente que ter a forma correta de adorar a Deus não nos tornará automaticamente aprovados diante d'Ele. Podemos cantar belos hinos, com letras que reflitam uma teologia sã, preparar sermões biblicamente corretos e, ainda assim, não agradarmos ao Senhor. Isto, porque não basta a forma, precisamos do conteúdo. Além de cantarmos hinos reverentes, precisamos estar cheios do temor de Deus. Além de orarmos as palavras certas, devemos ter o coração naquilo que pedimos. Também não é suficiente pregarmos ou ouvirmos um bom sermão. Necessitamos ser terra fértil para a boa semente.

          Pentecostais e tradicionais têm trazido colaborações importantes para o culto. Todavia, eles também enfrentam dificuldades para não saírem do padrão bíblico. Os primeiros são normalmente emotivos e espontâneos, e isto reputo como positivo. Contudo, a pretexto de intimidade com o divino, podem decair para a irreverência ou arrogância. Há manifestações estranhas aos princípios bíblicos em alguns meios pentecostais: sopros, rodopios e danças coreografadas, por exemplo. Além disso, há músicas cantadas pelos crentes que sequer merecem este nome. Verdadeiras brincadeiras, vazias de conteúdo teológico. Algumas já foram até parodiadas pelos descrentes: "na casa do Senhor não existe Satanás, xô Satanás...".

          Os tradicionais primam pela organização da liturgia, escolha cuidadosa dos hinos e pregação concatenada. Contudo, também aqui há riscos. Sim, pois decência e ordem podem ser confundidos com apatia. A pretexto de reverência, podem decair para um formalismo frio. As manipulações emotivas devem ser combatidas na igreja, mas não se deve reprimir as emoções espontâneas. Devemos adorar a Deus com todo o nosso ser.

          No livro de Esdras é descrito um culto cheio de temor e emoção: os judeus levantaram as mãos, colocaram o rosto em terra e choraram" (Neemias 8: 5 e 9). Quando Jesus entrou em Jerusalém, os discípulos louvavam em alta voz (Lc. 19:37). Os fariseus, cercados de cuidados com a ordem, pediram que Cristo repreendesse os seus discípulos. A resposta foi; "Digo-vos que, se estes se calarem, as próprias pedras clamarão" (Lc. 19:40). No dia de Pentecostes cerca de cento e vinte crentes foram cheios do Espírito Santo e falaram em línguas. O barulho foi tão grande que se ajuntou uma multidão para ouvi-los. Alguns até os tiveram por embriagados (At. 2:1-13). Mas, foi o próprio Deus o causador daquele alvoroço.

         O Novo Testamento prescreve decência e ordem para o culto (I-Cor. 14:40), mas o parâmetro não é a igreja de cada um, mas o próprio Senhor. Para muitos, as manifestações emotivas que relatei acima seriam classificadas como desordeiras e indescentes. Contudo, não foi assim que Deus as viu.

         O pastor Jonathan Edwards presenciou um grande avivamento espiritual no século XVIII nos Estados Unidos. Ele ouviu muitas críticas sobre as manifestações físicas que ocorriam nas suas reuniões. Sua resposta resumida foi:

         "Quando existe uma multidão reunida nessas circunstâncias, em alto vozerio, há quem faça objeções, dizendo que tudo é uma grande confusão e que Deus não poderia ser responsável por aquilo, pois Ele é o Deus da ordem, não da desordem [...] se Deus Se agrada em convencer a consciência dos homens, de maneira que eles não conseguem evitar expressões físicas descomunais, a ponto até de suspender e cessar por completo os atos públicos dos quais participam, não acredito que isto seja uma confusão maior ou uma interrupção mais lamentável do que se um grupo de pessoas estivesse reunido no campo para orar pela chuva e fosse interrompido por um copioso aguaceiro. Queira Deus que todas as assembléias públicas da terra tenham de interromper seus cultos no próximo domingo devido a confusões assim! Não precisamos lamentar a quebra da ordem dos meios, por termos alcançado o fim para o qual aquela disposição fora estabelecida" (A verdadeira obra do Espírito, Ed. Vida Nova, 1992, p. 66/67).
Culto no Tabernáculo Metropolitano
na época de Spurgeon
        Charles Spurgeon não era pentecostal, mas talvez não se sentisse tão à vontade em muitos cultos de uma igreja tradicional. Sobre a oração, ele disse: "Oh, oxalá houvesse um agudo gemido! Um suspiro da alma tem mais poder do que meia hora de recitação de belas palavras piedosas" (em Dallimore, Arnold A.; Spurgeon - uma nova biografia, PES, 2008, p. 75).

        Portanto, devemos cuidar para que nosso coração esteja cheio de gratidão, temor e amor pelo Senhor, para que o nosso culto seja reverente, mas fervoroso; ordeiro, mas emocionante.
   Termino com um trecho de um sermão proferido por Lloyd-Jones na capela de Westminster por ocasião do centenário do avivamento de 1859 na Europa e Estados Unidos: "Não, não queremos sentimentalismo doentio e piegas; queremos emoção, essa qualidade dada por Deus. Quando foi a última vez que vocês verteram lágrimas por causa da distância que se encontram de Deus? [...] quando foi a última vez que choramos de alegria, de pura alegria por causa do senso da presença de Deus?" (em Avivamento, Ed. PES, 1992. p. 82).







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