15 de agosto de 2011

A MENSAGEM DE AMOR CONTINUA ATUAL NO CRISTIANISMO

Luc Ferry
        Filósofo e ex-ministro da Educação da França, Luc Ferry é autor de sucesso. Sua obra Aprender a Viver, lançada em 2006, vendeu mais de 700.000 exemplares, mais de 40.000 deles no Brasil. Ele é coautor da obra A tentação do cristianismo, lançada este ano pela Editora Objetiva, e que foi criada a partir do debate ocorrido na Sorbonne em 2008 com o historiador francês Lucien Jerphagnon. O livro aborda a dominação da fé cristã sobre a cultura ocidental sob os mais diversos aspectos.

A seguir transcrevo parte da entrevista que Luc Ferry cedeu a Marcos Guterman, publicada no caderno Sabático de 16 de julho de O Estado de São Paulo. Em breve pretendo postar um comentário sobre o novo livro de Ferry.

Pergunta – De acordo com o seu ponto de vista, o amor cristão induz a pensar que Deus se retirou para deixar lugar aos homens. Será esta uma forma de emancipação humana?

Ferry – Uma grande filósofa cristã, Simone Weil, evoca a propósito do amor do ágape, que se supõe Deus experimentasse pelos homens, a famosa teoria judaica do Tsimtsum, da criação do mundo. Deus teria criado o mundo por amor, não por uma forma de superpotência, para declarar uma força infinita que transbordaria dele, por assim dizer, na criação dos homens e do universo, ao contrário, para permitir que existisse alguma coisa de exterior a ele. Deus teria deixado de ser para que houvesse o ser. É o ágape e, se refletirmos melhor, frequentemente é assim que nos comportamos com os nossos filhos. Às vezes, estamos dispostos a nos retirar para deixá-los em paz, ou, mais simplesmente contar uma experiência sem dúvida mais comum, a nos privar para dar a eles, economizar para que eles possam gastar.

Pergunta – O cristianismo, analisa o sr., quebrou a hierarquia rígida do “mundo perfeito” grego, refletido na sociedade deles. Por outro lado, não é esse mesmo mundo cristão que criará sua aristocracia, com a ideia de uma divisão da sociedade feudal por estamentos (bellatores, oratores, laboratores)?

Ferry – Em primeiro lugar, não devemos confundir a mensagem de Jesus e o que a Igreja como instituição política fez dessa mensagem ao longo de toda a Idade Média – e mesmo ainda hoje. É possível imaginar, por exemplo, Jesus como torturador chefe na Inquisição? Voltemos à mensagem original, e principalmente à magnífica parábola dos talentos, que encontramos no Evangelho de Mateus e pode servir de fio condutor ideal para compreender o que a revolução judaico-cristã nos oferece ainda hoje no plano ético. É sem dúvida o texto mais simples, talvez também o mais profundo, que nos permite compreender perfeitamente a convulsão radical que o cristianismo, na esteira do judaísmo, instaurará em relação à moral aristocrática dos gregos. Ele conta, em resumo, a história de um senhor que, ao partir para uma viagem, confia três somas de dinheiro diferentes a três dos seus servos. Cinco talentos ao primeiro, dois ao segundo, um ao terceiro – a palavra talento (talenta em grego) designava moedas de prata, mas simbolizava também os dons naturais que recebemos ao nascer. Ao regressar ele quer a prestação de contas. O primeiro servo devolve dez talentos, o segundo quatro e o terceiro que teve medo e enterrou a moeda, devolve-a intacta, sem que a tenha feito frutificar. O patrão o escorraça insultando-o e, ao mesmo tempo, felicita-se em termos iguais com os outros dois. O que significa essa parábola? Em primeiro lugar, e antes de mais nada, o seguinte: ao contrário do que pretende a visão moral aristocrática, a dignidade de um ser não depende dos talentos que ele recebeu ao nascer, mas do que ele fez com esses talentos, não da natureza e dos dons naturais, mas da liberdade e da vontade, quaisquer que sejam as dotações iniciais. Evidentemente, existem entre nós desigualdades naturais. Seria inútil querer negar esse fato em nome de um igualitarismo mal compreendido. Nós não podemos interferir a esse respeito: alguns são de fato mais fortes, mais belos e mesmo mais inteligentes do que os outros. Quem pode negar que Einstein ou Newton eram mais inteligentes do que a média, do que uma criança com síndrome de Down? É um fato, assim como é um fato que o primeiro servo tem cinco talentos enquanto o segundo tem apenas dois. E então? O que isso importa no plano ético? Resposta cristã: nada. Porque o que importa é o que cada um fará com a soma. É o trabalho que valoriza o homem, e não a natureza. E é preciso compreender bem o alcance moral incomparável dessa simples afirmação. Em um universo ainda impregnado de ética aristocrática, ela representa um verdadeiro sismo, uma revolução de que precisamos estar a par. Ela introduz a ideia moderna de igualdade, mas mais ainda talvez, ela deve servir para fazer compreender aos nossos filhos que, apesar de todas as suas imperfeições, eles estão num mundo em que, apesar de tudo, aquele que trabalha realmente e que não cede ao medo acaba sempre sendo bem-sucedido. É essa definição naturalista e aristocrática da virtude que o cristianismo fará literalmente voar em pedaços. Sua argumentação é muito simples e encontraremos sua versão secularizada em todas as nossas doutrinas morais republicanas e humanistas, por exemplo, nas primeiras páginas dos Fundamentos da Metafísica dos Costumes, de Kant: certamente os talentos naturais – a inteligência, a força, a beleza, a memória, etc. – constituem qualidades. No entanto, nada têm a ver com a virtude. A prova disso é que basta refletir o fato de que todos os talentos e os dons naturais, e sem a menor exceção, podem ser colocados tanto ao serviço do bem quanto do mal.

Pergunta – A promessa cristã da salvação, segundo o seu livro, quando cremos nela, é verdadeiramente superior à promessa da salvação filosófica, e esse seria o motivo pelo qual “o cristianismo venceu”. Mas ele “venceu” afinal em que sentido?

Ferry – A vitória do cristianismo sobre a filosofia é evidente ao longo de toda a Idade Média: a filosofia será reduzida ao que chamamos de “escolástica”, ou seja, ela praticamente deixará de ter o direito de se interessar pela questão da vida boa e da salvação, que se tornará monopólio absoluto da religião. A filosofia será reduzida a uma vulgar análise de conceitos, mas não será mais, como no tempo das grandes escolas gregas, um exercício concreto de aprendizagem da vida. Será preciso esperar o século 17 para que a filosofia retome aos poucos, principalmente graças a Espinoza, o projeto grego de definir a sabedoria e a vida bem-aventurada…

Pergunta – Embora o sr. não seja um crente, admite que o Evangelho de João é o livro que levaria para uma ilha deserta. É uma rendição à “tentação do cristianismo”?

Ferry – É evidente que a mensagem do amor continua atual no cristianismo, e inclusive mais atual do que nunca. É ela que é, ousaria dizer, “tentadora”. Porque é uma evidência que cega de tão óbvia, que atravessa e subverte continuamente nossa vida privada e no entanto, como se fôssemos tímidos, mal ousamos falar a seu respeito fora da intimidade: é o amor que dá sentido a nossa vida. Todo mundo sabe, todo mundo percebe. O que é menos evidente é que esse poder dos sentimentos nem sempre foi supremamente importante. Como mostro no meu último livro, Révolution de L”Amour, na verdade, ela está ligada a uma história ainda desconhecida: a da invenção, na Europa, do casamento por amor. Sob o efeito da passagem das uniões arranjadas para as uniões escolhidas, o ideal da paixão substituiu paulatinamente as fontes tradicionais de sentido e os antigos valores que foram sacrificados. Em termos filosóficos, o sagrado não é tanto o oposto do profano quanto aquilo pelo qual poderíamos nos sacrificar, dar a nossa vida. E, de fato, os ocidentais partiram para a guerra em nome da religião, da nação e da revolução. Mas quem gostaria ainda hoje em dia, pelo menos entre nós, de morrer por Deus, pela pátria ou pelo comunismo? Ninguém ou quase ninguém, felizmente. Mas, para os que amamos, estaríamos dispostos a tudo. Além do ideal das Luzes, dos direitos do homem e da razão, uma segunda idade do humanismo está prestes a nascer. Ela subverte a vida privada e a coletiva. Não é mais a glória do império, nem mesmo a da pátria que agora inspira a política moderna, mas uma questão totalmente diferente: a das gerações futuras, ou seja, dos nossos filhos, e do mundo que vamos querer deixar-lhes como herança.


George Gonsalves




Um comentário:

Anônimo disse...

coversando certa vez com um professor agnostico ele me disse se deus existe por que ele não resolve os problemas da humanidade. ai eu lhe falei que deus não tinha nada ver com isso pois é o homem que massacra o outro homem não deus. e lhe disse tambem não que deus não tenha compaixão pela humanidade muito pelo contrario ele tem mais que deus deu liberdade de escolha inclusive do homem masacrar o outro homem pois deus não ficar todo tempo interferindo na historia da humanidade. que bom que existe pessoas que se casaram de ser ateus e estão procurando crer em algo superior. agora fico triste porque certos teologos que negam que deus soberano e que deus não sabe do futuro esses teologos beberam de mais da teologia liberal e estão embreagados de vinho barato. graça e paz ass. otavio membro da igreja sal da terra ex-betesda maranguape

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