29 de agosto de 2011

LEITURA BÍBLICA CONDICIONADA

    Quantas vezes lemos um texto das Escrituras tão condicionados por uma determinada interpretação que não percebemos algo que ele quer nos falar, diferente daquilo que já pensamos. Ouvimos uma mensagem e pronto! Todas as vezes que lemos alguma passagem bíblica, somos inclinados a vê-lo com os óculos de outro. Repetimos, então, frases que nunca tivemos o cuidado de observar se estão de fato na Bíblia. Como exemplo: "Vinde como estás" (atribuído a Jesus); "Esforça-te, que eu te ajudarei" (atribuído ao próprio Deus). Claro que o princípio aplica-se a qualquer texto. Muitos universitários repetem os discursos de seus cultos professores, sem terem a convicção de que estão corretos. 
     Um dos fatores condicionantes na leitura das Escrituras pode ser as epígrafes, aqueles títulos que aparecem acima de algum trecho bíblico. Eles são muito úteis, pois nos auxiliam a localizar texto que procuramos, mas eles podem fazer-nos focar em apenas um aspecto de uma história ou ensino. Devemos lembrar que estes títulos não fazem parte do texto bíblico original, são colocadas pelos editores. Vejamos duas epígrafes que estão na Bíblia de Estudo Almeida (Sociedade Bíblica do Brasil, 1999):

      A parábola do filho pródigo (Lc. 15:11-32). Esta é uma das mais conhecidas parábolas do Novo Testamento, inclusive é o título de um livro do pastor John MacArthur (publicado pela Thomas Nelson em 2008). Ora, não há dúvida de que Jesus deseja falar sobre um certo filho que dissipa seus bens, gasta mais do que o necessário (sinônimo de pródigo). Mas, não acredito que este seja o único foco, nem mesmo o principal, da mensagem de Jesus.
      O início da parábola começa assim: "Continuou: Certo homem tinha dois filhos" (v. 11). Ou seja, temos três personagens principais: um pai e dois filhos, mas a epígrafe nos faz focalizar em apenas um deles: o filho pródigo. Há uma preocupação de Jesus em se deter também no outro filho, o mais velho, àquele que permaneceu na casa do pai. Cristo narra vários detalhes sobre ele: ele se indignou pela festa que o pai preparara para o filho mais novo (v. 28); procurou justificar ao pai que era merecedor de sua benesses, por ser um filho obediente (v. 29) e  mostrou distância afetiva de seu irmão ("esse teu filho"-v. 30). A meu ver isto tudo é muito importante no ensino de Jesus: um filho que se comporta apenas como servo, que acha que tem méritos diante do pai e que não demonstra misericórdia para com seu irmão.
     E é claro que Jesus quer ressaltar não tanto o pecado dos filhos, mas o perdão do pai. Lembremos a murmuração dos fariseus antes dele pronunciar uma sequencia de três parábolas sobre a busca de uma ovelha, dracma e filho perdidos: "Este recebe pecadores e come com eles" (Lc. 15:2). A ênfase não é no retorno do filho ingrato (isto era seu dever), mas na recepção feita pelo pai ferido: "era preciso que nos regozijássemos e nos alegrássemos, porque esse teu irmão estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado".

      O bom samaritano (Lc. 10:25-37). Foi através de um texto do pastor Robert McAlister ("O samaritano foi bom?) que percebi que obviamente Jesus nunca chamou o samaritano da parábola de bom. Ele apenas narra o que ele fez (ajudar um homem ferido no caminho) e arremate ao intérprete da lei: "Vai e procede tu de igual modo" (v. 37). Cristo não qualificou o samaritano como alguém bom. Certa vez Ele disse: "Ninguém é bom senão um, que é Deus" (Mc. 10:18). Jesus relatou algo que o samaritano fez, e disse que isso era algo a ser praticado pelos demais homens.
       Não podemos ler o texto sagrado, ou qualquer outro, sem algum condicionamento prévio. Mas, devemos pô-lo à prova. Condicionamento não é determinação. Outrossim, fazemos bem em ler a Bíblia sem sermos totalmente dirigidos pelas epígrafes.   

George Gonsalves

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