17 de junho de 2011

EVANGÉLICOS E A DITADURA MILITAR: CONSIDERAÇÕES


                                                          Foto: O Globo (21.07.68)

           A reportagem da revista IstoÉ desta semana sobre a atuação dos evangélicos no período da ditadura militar brasileira, traz assuntos que geram muitas discussões: qual o papel do cristão ante determinados momentos da história social de seu país? Deve o cristão submissão irrestrita às autoridades, sejam elas quais forem?
          Primeiramente, é preciso dizer que o uso de generalização na História (tão útil para fins didáticos) pode nos levar a não perceber a beleza da sua complexidade. Deste modo, os grupos que a História estuda quase nunca são homogênios. Assim, na Segunda Guerra Mundial encontramos inúmeros líderes protestantes prostados ante Hitler, mas também encontramos a resistência e a coragem de pastores como Bonhoeffer (morto em um campo de concentração) e André Trocmé (preso por abrigar judeus). Na luta pela emancipação dos escravos, havia evangélicos dos dois lados. Muitos eram escravagistas, mas do outro lado da trincheira havia um Wilbeforce, ou mesmo John Wesley.
          Podemos, pois, distinguir na reportagem supra citada pelo menos três tipos de comportamento que os evangélicos tiveram nos anos de chumbo no Brasil. Primeiramente, houve aqueles que, apesar de manterem uma certa distância dos embates políticos, saudaram a chegada dos militares ao poder. Entre eles estão pastores como Enéas Tognini, líder batista que nos anos 80 fundou a Igreja Batista do Povo. Ele assim escreve em sua autobiografia: "E Deus respondeu ao clamor do seu povo com 31 de março de 1964. Um grupo de brasileiros acha que a revolução de 1964 foi política, cometeu muita injustiça. Não importa, o importante é que Deus fechou a porta para o comunismo. Para nós, evangélicos, o maravilhoso resultado foi LIBERDADE PARA ANUNCIARMOS A PALAVRA DE DEUS" (Enéas Tognini - A autobiografia. Ed. Hagnos. p. 164).
          É preciso termos em conta que havia uma ameaça comunista real no país. Boa parte da esquerda não era democrática, mas queria implantar no Brasil um regime socialista, seja inspirado na União Soviética ou em Cuba. O comunista Prestes falava: "Já temos o poder, falta-nos o governo". Lembremos que nos países socialistas havia uma perseguição real aos religiosos, inclusive com confiscos de imóveis e prisões. Não é de admirar que os evangélicos temessem a tomada de poder pela esquerda. O golpe militar foi um alívio, entendido, inclusive, como ato da providência divina. Compreendo este posicionamento, com uma ressalva. Na frase que citei do pastor Tognini, ele demonstra um desdém por injustiças cometidas pelo regime militar. Tal posição não se coaduna com a ótica bíblica: "Ai dos que decretam leis injustas, dos que escrevem leis de opressão, para negarem justiça aos pobres, para arrebatarem o direito dos aflitos do meu povo..." (Isaías 10:1-2).
          Em segundo lugar, a repotagem da IstoÉ traz a história de evangélicos que foram perseguidos pelos militares, inclusive com prisões e torturas. É o caso de Anivaldo Pereira Padilha, da Igreja Metodista do bairro da Luz, em São Paulo, Zwinglio Mota Dias, hoje com 70 anos, pastor emérito da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil, da Penha, no Rio de Janeiro e do teólogo Leonildo Silveira Campos, que era seminarista na Igreja Presbiteriana Independente e ficou dez dias encarcerado nas dependências da Operação Bandeirante (Oban), em São Paulo. Todos lutavam por um país mais justo, que oferecesse uma condição digna para o seu povo. Poderiam estar imbuídos do sentimento de indignação que enchia o peito de profetas no Antigo Testamento, quando denunciavam a injustiça em Israel. Sem entrar em pormenores, entendo que o cristão não deve se omitir ante os problemas sociais dos seus compatriotas. Não devemos nos fechar em guetos, em nosso mundinho eclesiástico, enquanto há clamores de justiça ao nosso redor. No entanto, mais uma vez faço uma ressalva: não entendo com legítima o uso de violência pelo cristão, mesmo com fins pretensamente nobres.
          Por fim, houve uma outra posição tomada por alguns evangélicos brasileiros: a participação ativa na repressão. A revista cita os irmãos José Sucasas Jr. e Isaías Fernandes Sucasas, pastor e bispo da Igreja Metodista, que delataram pessoas da própria igreja que pastoreavam, e o pastor batista Roberto Pontuschka, capelão do Exército, que, segundo o texto, "torturava os presos à noite e de dia visitava celas distribuindo o Novo Testamento. Este comportamento é simplesmente inaceitável. Causa-me vergonha saber que líderes de importantes igrejas tenham tido atitudes como estas. Sei dos conhecidos argumentos em prol da submissão às autoridades, mas Cristo nunca se dobra à César. Os valores cristãos são inegociáveis. Por isso, os apóstolos puderam falar: "Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens" (Atos 5:29).
          Concluo afirmando que o conhecimento da História é-nos de muita serventia. Refletir sobre o passado pode nos levar a construir um futuro melhor, a repensar "nossas teologias". Devemos observar que os evangélicos da década de 60 tiveram que tomar posições "no calor do momento", com aquilo que sabiam. Nós também precisamos nos posicionar hoje sobre temas de nosso tempo. As injustiças ainda perduram, os problemas sociais ainda existem. Que caminhos devemos tomar? No futuro os homens vão escrever sobre como os evangélicos do início do século XXI se portaram ante o seu mundo. Nossa história nós a fazemos hoje.

George Gonsalves

5 comentários:

Anônimo disse...

a ditadura militar de certo modo foi nesceraria pois de qualquer jeito haveria um golpe de estado pricipalmente por parte dos comunistas ai seri pior pois a igreja seria persiguida que ela fosse evagelica ou catolica pois os maxcistas são ateus e abominam a religião. por outro lado eu achei o regime militar muito cruel matou muita gente inocente pois foi abusivo . no meu ver como cidadão não deveria ter havido golpe algum nem direita quanto menos de esquerda ass otavio

marquecomx disse...

Olá George, como vai?

Passei para desejar uma ótima semana da Pátria.
Parabéns pelos textos. A blogosfera é carente de blogs que tenham informações relevantes, e você está contribuindo para que ela se torne cada vez mais rica em conhecimentos. Você faz a diferença!
Obrigado por fazer parte deste universo virtual, obrigado por compartilhar um pouco do que sabe e contribuir para o aprendizado de muitos.
Permita-me deixar o link para o blog Marquecomx, obrigado:

http://www.marquecomx.com.br/

Abraços, fiquemos na Paz de Deus e até breve.

Anônimo disse...

Siceramente que idiotisse dizer que "de certa forma foi melhor"!Um simples espirro era tido como um ataque comunista.E por muitas vezes se superestimava o Comunismo no Brasil.Nada justifica a ditadura.

Alexandre Machado disse...

Prezado anônimo!
O senhor desconhece muitos aspectos referentes ao comunismo, a igreja e a história. As repetidas mentiras despejadas pelos estadunidenses, no lado do hemisfério ocidental sobre comunismo, tão assimilada pela igreja protestante, e agora por vossa senhoria que também insiste em fazer o papel do papagaio do pirata, áo de um dia desfazer-se como uma névoa, como se jamais tivessem existido. Pois Jesus era comunista- dava e distribuia gratuitamente ao povo e inclusive á nobres de sua época. Durante os mais de 50 anos em que perdurou o regime comunista a igreja estava lá para assistir espiritualmente ao povo e se opor ao governo se necessário fosse. E ainda sempre houve igreja mesmo na ex- urss, pois qualquer regime precisa de igreja para se sustentar espiritualmente, inclusive o militar, que havendo sido regeitado pelos católicos, utilizaram suas covardes marionetes protestantes para atingir seus objetivos, que era a manutenção do status quo, privilégios das elites, e perpetuação da miséria. É nesse tempo em que começa a proliferação das favelas brasileiras. E tudo com a graça e o beneplácito protestante que cegamente cria estar fazendo a vontade de DEus.

otavio albino disse...

comunismo é do diabo assim como o capitalismo selvagem tambem . comunista não gosta do cristianismo . comunismo marxista e cristianismo sãO IMCOPATIVEIS não devemos comparar jesus com karl marx comparem barrabas com marx é o mais plausivel . a revolução de jesus é maior do que a de karl marx pois é a revolução do amor . o que me adimira é que tem ateus que leem esse blog cristão , então não são ateus ? idiota é o ateu que diz que é ateu ler um blog cristão . parece que certos ateus não são fieis as suas ideias ficam se consando pra ler publicações cristãs acaso querem se converter .

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