22 de novembro de 2010

A VERDADE E A MULTIDÃO


                                             
                                                                                                                                 por George Gonsalves 

       Não gostamos de estar contra a maioria. A força da multidão nos pressiona. Pessoas convictas de uma verdade ou uma decisão mudam quando se sentem confrontadas com um grande número de contradizentes.
      Mas, no reino de Deus a maioria quase sempre está errada. Foi assim quando decidiram adorar o bezerro de ouro, ou quando ficaram contra Josué e Calebe (a favor dos dez outros espias), ou ainda quando o povo escolheu ter um rei para si (contra a vontade do piedoso Samuel). Não é a toa que Jesus falou sobre entrar pela porta estreita e andar por caminho apertado.
     Na história da igreja, alguns valorosos homens e mulheres ousaram seguir a verdade a despeito da crítica e perseguição da esmagadora maioria. E por causa disto, se tornaram luminares da fé cristã. Atanásio foi o grande defensor da doutrina da trindade, quando o arianismo estava varrendo a cristandade. Conta-se que quando disseram a ele que o mundo estava contra ele, imediatamente ele devolveu: “Então é Atanásio contra o mundo”.
     Roger Williams foi alguém que buscou conhecer a verdade do evangelho, a que custo fosse. Foi expulso da colônia dos puritanos na Baía em Massachusetts por discordar que a igreja fosse sustentada pelo poder civil. Fundou, então, uma comunidade em Rhode Island em que não haveria perseguição religiosa: chamou de Providence. Depois estabeleceu, talvez, a primeira Igreja Batista em solo americano, em 1639. Mas, a comunidade se corrompeu. Então, ele partiu para outro lugar. Ele se recusava a fazer pactos ou conchavos com aquilo que acreditava que feria os padrões bíblicos. Robert Bellah, sociólogo americano o descreveu: “Roger Williams era moralmente um gênio, mas uma catástrofe sociológica”.[1]
John Wesley desafiou os rígidos padrões da Igreja Anglicana e transformou esquinas e montes da Inglaterra em locais de pregação. Seu objetivo era cumprir de forma cabal o mandamento de anunciar o evangelho a toda criatura. O resultado: milhares de homens rudes se dobraram diante do Altíssimo e tiveram suas vidas mudadas para sempre.
      Charles Spurgeon é hoje reconhecido como um dos grandes pregadores da história da igreja. Mas, no final de sua vida ele se viu isolado dentro de sua própria denominação, Batista. Para ele havia desvios doutrinários inaceitáveis que precisavam ser combatidos. Sentindo-se sozinho, ele disse em 1887, cinco anos antes de sua morte: “Faz muito tempo que eu deixei de contar cabeças. Geralmente, a verdade está em minoria neste mundo. Quanto a mim, tenho fé no Senhor Jesus Cristo, uma fé que me queima por dentro como que com ferro em brasa. Graças a Deus, o que creio crerei, mesmo que somente eu o creia”.[2]    
     Os exemplos que citei não são, obviamente, de homens perfeitos. Eles cometeram erros ao longo de sua caminhada. Mas, foram sinceros. Não se intimidaram diante dos que lutavam contra a ideia que defendiam.
      O que acontece muito são pessoas que violentam suas consciências. Não defedem nem seguem o que acreditam ser a verdade, pois temem ser jogados no ostracismo religioso. Não querem ir de encontro ao status quo institucional e, assim, sofrer a perseguição e o abandono daqueles que dominam as denominações. Até Pedro dissimulou. Para não desagradar os judeus, se afastou dos gentios em dada situação, o que gerou indignação em Paulo (Gl. 2:11-14).
     Mas, coragem! O Senhor não abandona os que estão pelejando pela “fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd. 6). E lembre-se: estar com a verdade é estar com o Senhor, e estar com Ele é mais do que estar com a maioria.




[1] Citado em Souza, Jessé de (org.). O malandro e o protestante. Brasília, Editora UNB, 1999, p. 302.
[2] Citado em Murray, Iain. O Spurgeon que foi esquecido. São Paulo-SP, PES, 2004, p. 170.

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