1 de novembro de 2010

OS PASTORES E AS ELEIÇÕES


 
Confesso que não vi a hora de chegar ao fim estas eleições. Mentiras, baixarias e pouco conteúdo programático por parte dos candidatos. Do outro lado, um comportamento bisonho de alguns líderes evangélicos.
            Veja o caso do pastor Marco Feliciano. Tomou o tema avivamento como maior mote do seu ministério. No 21º Encontro dos Gideões Missionários em Comburiu, em 2005, afirmou para uma multidão eufórica: “Nunca me rebaixarei a ser um político”. Após polpudas arrecadações (recolhidas até em lençóis), se lançou candidato a deputado federal, conseguindo a eleição. Questionado sobre a incoerência, ele afirmou:
“Eu era um jovem pregador, pregando no maior evento pentecostal do Brasil, eu queria mostrar serviço!”; “Alguém me falou que Billy Graham havia dito isto e eu copiei”. O que transparece de sua declaração é que ele usou (ou usa) frases de efeito, sem sentir o que diz, apenas para impressionar o público (“mostrar serviço”). Ficamos a nos perguntar o que mais é apenas copiado de sua mensagem.    
            Ele ainda disse: “Fui imaturo e ignorante, porque naquele momento eu vinha em ascensão ministerial e as Assembléias de Deus tinham aversão à política”. Não há precisão em suas palavras. Há muito as Assembléias de Deus não têm aversão à política. Lembro que nas eleições de 1989, há mais de 20 anos atrás, houve o forte apoio de José Wellington, presidente da Convenção Geral das Assembléias de Deus, ao então candidato Collor de Melo. Na época chegou a afirmar: “Seu governo será marcado pela seriedade que o acompanha” (Jornal do Brasil, em 16/10/1989). Além do mais, há inúmeros parlamentares que são membros desta denominação. O mais notório é a senadora Marina Silva, que também foi candidata a presidente.
            Não é que um cristão não possa voltar atrás em alguma posição. O que me espanta são as desculpas usadas para se justificar. Outra coisa inaceitável é usar a igreja e seus recursos para projetos que não estão relacionados diretamente com o ministério cristão.
            Outra figura eminente do meio evangélico, Silas Malafaia, conseguiu protagonizar momentos de precipitação e contradição. Primeiramente no primeiro turno declarou voto em Marina Silva. Depois, mudou e disse que votaria em Serra. Alegou que Marina não havia se posicionado de forma incisiva contra o aborto e a união civil entre homossexuais. No segundo turno, entrou de cabeça na campanha de José Serra aparecendo, inclusive, no horário eleitoral. Para ele Dilma não representa os interesses dos evangélicos, pois não é claramente contra o aborto.
            Faço algumas observações. Em primeiro lugar, não houve coerência em sua posição. O próprio candidato Serra declarou (e o próprio Silas confirmou) que é a favor da união civil entre homossexuais. Ora, se ele não vota em Dilma, nem em Marina, por questões religiosas, por que votaria, e mais, faria campanha para Serra? É preciso lembrar que o voto nulo ou em branco também é uma opção política e de cidadania. Além disso, Silas Malafaia usou o espaço de seu programa, sustentado por milhões de reais doados por pessoas interessadas na propagação do evangelho, para de forma disfarçada apoiar um candidato. Ele chegou a ofender pessoas que não estavam mais dispostas a contribuir com o seu programa, tendo em vista o desvio de foco.  
            Por último, o “apóstolo” Valdomiro apareceu também no programa do candidato do PSDB dizendo: “Se vocês confiam em mim, votem em Serra”. É lamentável usar este tipo de expediente. Ou seja, quem não seguir a sua orientação, é porque desconfia dele. Qualquer crente, por mais santo que seja não merece nossa confiança plena, principalmente tratando-se de política partidária, que envolve muito dinheiro e poder.
            Eis um pequeno resumo das eleições de 2010: candidatos e partidos políticos acusados de corrupção, pastores se portando como cabos eleitorais e outros abandonando o ministério que diziam ter recebido de Deus para se tornarem parlamentares. Talvez devêssemos prestar mais atenção nas palavras do pastor presbiteriano Álvaro Reis, em 1915: “Toda igreja que se envolve [...] na política torna-se mais corrupta do que a própria vida política”. 
                                                                                                                                         George Gonsalves



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