10 de maio de 2010

PENSANDO NO AMOR DE DEUS


        No início da minha fé aprendi um corinho simples, mas que tem uma mensagem muito profunda. Em um trecho diz: “faz-me entender o teu amor por mim e assim amar-te mais...’’. De fato, o que faz com que tenhamos cada vez mais uma vida devotada ao Senhor é a consciência cada vez maior do amor de Deus por nós.
         Em primeiro lugar, para que tenhamos uma visão mais clara do amor divino devemos relativizar as comparações, pois em relação a Deus toda  comparação é como uma sombra pálida e distante. Amamos nossa esposa, nossos filhos, nossos irmãos em Cristo, e então pensamos que o amor de Deus deve algo próximo a isto. Entretanto, a realidade é que estamos falando de coisas muito distintas. O amor de um ser humano a outro, pecador e limitado como ele, é muito diferente daquele que emana do Todo-Poderoso para o homem: “Ninguém tem maior amor do que este” (João 15:13).
         No livro de Lucas, capítulo 7, há uma história envolvendo três personagens: Jesus, Simão (um religioso) e uma mulher, que a Bíblia descreve apenas como pecadora. O fariseu recebe Jesus com frieza, afinal, pensava ele, não era tão mau assim. Cumpria seus deveres religiosos (os fariseus procuravam cumprir mais de mil regulamentações) e, além disso, teve coragem para convidar Jesus para sua casa. Imagino que ele não destratou o Senhor. Durante a ceia, deve ter conversado polidamente com o Mestre, feito perguntas, etc. Já a mulher pecadora não tinha muito a dizer a Jesus. A Bíblia não registra uma única frase que ela tenha pronunciado. Ela nem sequer ficou em frente de Cristo, mas “estando por detrás, aos seus pés, chorando, regava-os com suas lágrimas...” (7:38). O que mais ela fez? “Então os enxugava com os próprios cabelos, beijava-os e os ungia com o ungüento”. Que demonstração de gratidão! Simão, o religioso, não entendia nada disso. Ficou chocado com aquele “exagero”, ou para usar uma palavra cara aos nossos dias, com aquele “fanatismo”.
         Qual a razão para tamanho gesto de carinho e reverência daquela mulher? Ela compreendeu o amor de Cristo por ela. Tão desprezada pelos seus pares, foi acolhida exatamente por aquele que estava em condições de condená-la. “Os teus pecados te são perdoados”. Já o fariseu pouco amava, porquanto não achava que tinha muito a ser perdoado: “Mas aquele a quem pouco é perdoado, pouco ama”. Mas qual crente pode dizer que foi pouco perdoado por Jesus?    
        Às vezes, somos tentados a achar que tínhamos apenas alguns ajustes a fazer em nossas vidas para sermos dignos de contemplar o Altíssimo pelo século dos séculos. O que a Bíblia nos afirma é diametralmente oposto a isto. A ênfase nos atordoa e humilha: “Não há um justo, nem um sequer; não há ninguém que entenda, não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só...” (Romanos 3:10-12). Era este o nosso estado natural, esta era a nossa condição. Não fomos nós que subimos moralmente até chegarmos às portas celestes, mas Ele se humilhou, tomando a forma de servo, vindo a este mundo para morrer pelos pecadores. A manjedoura, primeiramente, e depois a cruz, nos fala até que ponto Jesus estava disposto a tomar o nosso lugar. Por isso podemos falar como Tozer: “sendo imenso, o Seu amor é um mar incompreensivelmente vasto, profundo e sem praia, perante o qual nos ajoelhamos em jubiloso silêncio, e do qual a mais sublime eloqüência se retrai, confusa e envergonhada”.      
        O apóstolo Paulo falou que orava pelos éfesos para que eles pudessem conhecer o amor de Cristo. Só que ele mesmo completa dizendo que este amor excede todo o entendimento. Como podemos conhecer aquilo que ultrapassa nossa razão? Poderíamos afirmar que seria um conhecimento não meramente intelectual, mas também afetivo, mas acredito que a resposta não é apenas isto. Na verdade, podemos ter algum vislumbre deste amor, seja afetivo ou intelectual. Podemos e devemos crescer neste amor, mas não alcançaremos sua plenitude. É como se percorrêssemos uma infinita estrada. Quando chegamos a algum horizonte, então percebemos que a estrada não chegou a seu limiar. Então olhamos para frente e descobrimos que ainda não caminhamos nada em relação à infinitude do caminho.  
        No final de seu belo livro Os quatro amores, C.S. Lewis evita mensurar o seu amor por Deus. Faço também o mesmo. Por muito tempo pensava se estaria disposto a morrer por Cristo em uma fogueira, como fizeram tantos cristãos ao longo do tempo. Pensava se realmente estaria disposto a sacrificar para Deus tudo aquilo que Ele porventura pedisse. A resposta para estas perguntas eu realmente não sei. Se alguém me perguntar hoje se teria coragem de morrer por Jesus em uma fogueira, minha resposta será: “só quando acenderem o fósforo é que saberei”. Contudo, sei que a consciência cada vez maior do grande amor de Deus por mim, vai levar-me a também amá-lo mais. Quanto mais perceber seu amor, mais terei vontade de agradá-lo. Não quero me concentrar no amor que tenho por Deus, mas sim no que Ele tem por mim: ”Pois o amor de Deus nos constrange, julgando nós isto: um morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressurgiu” (II – Coríntios 5:14).       
            George Gonsalves

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