12 de abril de 2010

RELIGIÃO OU HUMANISMO PÓS-MODERNO?


            No mês de março participei de um seminário sobre filosofia da religião. O curso foi realizado na Universidade Federal do Ceará e ministrado pelo Dr. Manfredo Araújo de Oliveira, importante filósofo brasileiro, com quinze livros publicados.
            Dentre tantas coisas importantes faladas pelo professor Manfredo, uma chamou-me atenção em especial. Ele citou uma corrente atual de pensamento sociológico, que estuda o crescimento da membresia das igrejas na América Latina e Estados Unidos. Para esta corrente, não é a religião propriamente dita que está crescendo, mas um tipo de humanismo pós-moderno, travestido de sentimento religioso. A tese é obviamente polêmica, mas o que se quer dizer é que a religião de hoje, que está em franca ascensão, não é a de outrora, pelo menos a maneira mais comum de se pensar o aspecto religioso.      
            Vejamos a aplicação desta tese dentro do contexto evangélico. A religião cristã de outros tempos enfatizava o desapego às coisas materiais, a renúncia, um modo de vida simples e uma forte esperança escatológica. Contudo, principalmente, desde o início da expansão da “Teologia da Prosperidade” na década de 60 passada, tem havido um desvio no foco da mensagem cristã. A esperança mais premente não é mais a volta de Jesus, mas a prosperidade material aqui e agora. O grito de “maranata” foi sendo gradualmente substituído por outros clamores: “o mundo é nosso”, “fomos chamados para cabeça”, “declare ao Senhor”. O ascetismo tão característico do movimento pentecostal do início do século XX foi abandonado por um tipo de licenciosidade. Quase tudo é permitido, tudo em nome da liberdade.
            Esta mensagem atual da cristandade tem sido chamada por alguns estudiosos de humanismo pós-moderno. Antes, alguns humanistas queriam retirar Deus do centro das atenções: “o homem é a medida de todas as coisas”, disse um deles. Agora, são os próprios cristãos que tratam de tentar colocar Deus a serviço dos homens. Como disse certo ministro, “é o evangelho a gosto do consumidor”. No passado, homens e mulheres piedosos se torturavam para descobrir a vontade de Deus para suas vidas. Na perspectiva atual, Deus tem que realizar os sonhos e objetivos dos crentes.
            Não sei se o que se mais ouve nas igrejas evangélicas de hoje pode ser chamada de mensagem religiosa. Deixo esta avaliação para os estudiosos da filosofia, sociologia e semântica. Mas, posso asseverar que não se trata de mensagem genuinamente cristã, pelo menos como ela foi entendida pela maior parte da igreja no decorrer dos séculos. A confissão que se tornou sinal de identificação entre os cristãos no início da igreja e que deveria ainda ser é “Jesus Cristo é o Senhor!”.
                                                                                                                George Gonsalves 

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