15 de março de 2010

1859: O ANO DA RESPOSTA DE DEUS

                                                                                                                    
                                                                                                                      por George Gonsalves

O mundo fervilhava em 1859. Na política, ciências ou nas artes, novas idéias transpiravam por toda a parte anunciando transformações que mudariam a face da sociedade. Todavia, uma grande obra espiritual acontecia neste ano também, fato este ignorado pela maioria dos historiadores. Houve grandes avivamentos em diversos países, missionários desbravando lugares longínquos e inúmeras obras sociais foram levantadas por servos do Deus vivo.
Este ano está incluído naquilo que o historiador Eric Hobsbawn chamou de "Era do Capital". Se consolidava o triunfo do liberalismo econômico, com grandes empresas brotando em muitos lugares, principalmente na Europa e Estados Unidos. Um dos fatos mais importantes para a economia das nações no milênio ocorreu neste ano: a perfuração do primeiro poço de petróleo, na Pensilvânia.
O desenvolvimento econômico alavancou o progresso científico. De fato, inúmeros cientistas brilhantes estavam em plena atividade na metade do século XIX como Faraday, Pasteur, Mendelev e outros. Todavia, o que maior impacto causou foi, sem dúvida, o inglês Charles Darwin. Ao publicar em novembro de 1859 sua obra A Origem das Espécies ele provocou grande celeuma ao defender que o homem não seria uma criação específica de Deus, mas uma evolução de uma outra espécie. Ainda, estava alistado para combater o cristianismo o pensador alemão Karl Marx, que pregava a inutilidade da religião, considerando-a ilusória. Suas ideias cresciam e se propagavam gradativamente por toda a Europa. As bases da religião pareciam estar sendo demolidas a ponto de alguns imaginarem o seu fim. A inspiração da Bíblia foi colocada em dúvida como talvez nunca antes. O escritor Wells escreveu sobre esta época: “Houve uma perda real de fé, depois de 1859. O verdadeiro ouro da religião foi, em muitos casos, posto fora juntamente com a bolsa usada e velha que o contivera por tanto tempo, e para não ser mais recuperado.”
Mas este ano se mostrou muito importante para a igreja cristã. Em vários países milhares de crentes foram despertados para uma vida piedosa e outros milhares foram convertidos ao evangelho. Em raros momentos na história da igreja, houve tantas manifestações espirituais atingindo tantas pessoas, e em tão grande número de nações ao mesmo tempo.
Na Grã-Bretanha o fogo espiritual caiu de forma abundante. Inglaterra, País de Gales, Irlanda do Norte e Escócia, foram atingidas por avivamento. Em 1859, o ainda jovem Charles Spurgeon, inflamou as multidões que afluíam ao Surrey Music Hall, uma das maiores casas de Londres. Algumas de suas mais célebres mensagens foram ali pronunciadas neste ano. No dia 17 de julho ele proferiu a antológica mensagem “A história dos poderosos feitos de Deus”. Nela, descreveu a operação divina na história da humanidade. Procurou demonstrar que o avivamento depende, primordialmente, da poderosa ação de Deus: “Abandonemos a idéia de que o nosso arco e a nossa espada possam conduzir-nos à vitória. Nunca poderemos experimentar um avivamento, a não ser que creiamos que o Senhor e somente o Senhor, é quem pode realizá-lo”, disse o inflamado pregador. Não muito longe dali, na cidade de Bristol, George Müller continuava seu trabalho em favor das crianças carentes. No mês de julho daquele ano começava a construção do seu terceiro orfanato, para mais 150 crianças. Seu objetivo não era apenas dar sustento material às crianças, mas edificá-las com a Palavra do Senhor, preparando-as para servirem a Cristo. Ele havia feito um pacto com Deus no qual nunca pediria, a quem quer que fosse, ajuda para os seus orfanatos. De fato, o Senhor o assistiu em todos os momentos suprindo todas as suas necessidades e de todos os que estavam sob seus cuidados. O pacto foi cumprido. É digno de nota ainda o movimento espiritual no distrito de Gateshead, em Londres, onde William Booth era ministro de uma igreja. Quando assumiu, aos domingos à noite, havia cerca de 120 pessoas e em poucas semanas não era incomum ter 2.000 pessoas. Aquela igreja passou a ser conhecida como “A Oficina das Conversões”. Em 1859, o movimento se estendeu por outros distritos. Anos mais tarde Booth fundaria o Exército da Salvação, formado por destemidos crentes que sacudiram a Inglaterra com a pregação do evangelho e ajuda aos carentes.     
No País de Gales, a igreja estava fortemente influenciada pelo unitarismo, doutrina que nega a trindade. Até que um jovem ministro de 27 anos, Huphrey Jones, teve seu coração incendiado passando a pregar fervorosamente o verdadeiro evangelho por todas as partes. Um grande movimento espiritual teve início. Um espírito de oração tomou conta das cidades. Jovens e crianças foram especialmente atingidos, reunindo-se em casas para ler a Bíblia e cantar ao Senhor. Houve considerável aumento na comunhão entre os crentes, pois o avivamento chegou a várias denominações. Um cristão afirmou, extasiado: “Agradeço a Deus por ter visto o ano de 1859. Na Sua graça, Deus fez mais nas últimas semanas nesta parte do país do que foi realizado anteriormente numa geração”. Calcula-se que neste ano, em todo País de Gales, houve cerca de 50.000 conversões.  
O norte da Irlanda viu também uma das maiores manifestações espirituais de sua história. Em diversas cidades o poder de Deus foi percebido com intensidade. No dia 14 de março, na localidade de Ahoghill cerca de três mil pessoas se reuniam em meio a uma fria chuva. Quando a manifestação de Deus foi sentida muitos se ajoelharam ali mesmo em meio a lama, humilhadas perante o Senhor. As pessoas gritavam e gemiam pedindo perdão de seus pecados. O país sentiu os efeitos do avivamento. Ocorreu diminuição no consumo de bebidas alcoólicas, de crimes e de toda sorte de pecados. A Irlanda do Norte ficou sendo conhecida como a província mais pacífica do império britânico. Ao sul, a Irlanda foi sede de uma tentativa de reforma radical da igreja. Esta ganhava força em 1859. Tendo começado inicialmente em Dublin, um grupo conhecido simplesmente como “irmãos” se reuniam em casas para partir o pão e edificação pela Palavra. Sob a liderança de homens como C.H. Mackintosh, William Kelly e John Nelson Darby, alcançaram a Suíça, França, Alemanha, Holanda e Escandinávia pregando a simplicidade da vida cristã e anunciando com entusiasmo a volta de Cristo. A influência deste grupo foi muito grande no meio evangélico. D.L. Moody disse que se todos os livros do mundo inteiro fossem queimados, ele ficaria satisfeito em ter apenas uma cópia da Bíblia e uma coleção das notas de Mackintosh sobre o Pentateuco.
Tantas manifestações levaram o Dr. Lloyd-Jones em palestra por ocasião do centenário deste avivamento, a declarar na Capela de Westminster, em Londres: “1859, aquele ano maravilhoso na história do povo de Deus.”  

O despertar dos Estados Unidos
Os norte americanos também experimentaram em 1859 um grande avivamento espiritual. Ficou conhecido como o Segundo Despertar.
Um dos maiores propagadores do avivamento foi Charles Finney. Ele havia percorrido inúmeras cidades americanas pregando a Palavra e uma nuvem de poder parecia que o acompanhava. Além disso, ele preparou inúmeros pregadores através de seus cursos teológicos. Distritos inteiros foram transformados através de sua mensagem. Mas, o avivamento não se restringiu à obra de Deus por meio de Finney (que esteve na Grã-Bretanha em 1859). Houve um maravilhoso espírito de oração sobre os americanos. Dezenas de reuniões foram formadas em vários estados. Um grande interesse surgiu também entre os crentes em voltar ao cristianismo primitivo, desapegando-se de tradições humanas que contrariavam à Bíblia. Por isso crescia o movimento dos Discípulos de Cristo. Tendo como líder Alexander Campbell e como principal evangelista Walter Scott os discípulos chegaram a 200.000 dois anos após o avivamento, em 1861. Ainda poderíamos destacar a obra que o Senhor fazia através de D.L. Moody. Em 1859, ele completou 22 anos e já realizava um trabalho de evangelização vigoroso, principalmente entre as crianças, na cidade de Chicago. Anos mais tarde, ele se transformaria num dos maiores evangelistas da história da igreja. O avivamento que começou em 1857 e se estendeu com grande poder até 1859 arrebatou quase 2 milhões de pessoas dos 30 milhões de habitantes dos Estados Unidos. O impacto em algumas regiões foi tão grande que o jornal diário de Louisville, Kentucky, anunciou que o milênio havia chegado.       

Missões: Deus busca o homem
Alguns dos mais importantes missionários do século XIX estavam, neste ano, em intensa atividade evangelística. O inglês Hudson Taylor adentrava o território chinês com ardente amor por um povo tão diferente do seu. Seus conhecimentos médicos o ajudaram a estar mais perto dos pecadores a quem queria pregar a salvação. Adquiriu respeito e muitos se dobraram ao Senhor. Na África, o célebre David Livinstone desbravava o continente mais temido na época. As terríveis histórias de selvagens canibais e doenças incuráveis não o desanimaram. Passou para a história como grande explorador, pisando em terras raramente pisadas antes pelo homem. Seu objetivo, no entanto, era levar o evangelho a pessoas tão esquecidas pelo chamado mundo civilizado. Anos mais tarde, seu corpo seria encontrado em uma cabana, de joelhos, em posição de oração. Seu coração foi enterrado em solo africano, conforme havia pedido, e seus restos mortais foram transportados para Londres, onde foram sepultados com honras de herói.

Conclusão
O relato dos fatos ocorridos no ano de 1859 deve nos causar grande alegria e expectativa, afinal de contas não faz tanto tempo assim. Alguns céticos perguntariam: “Poderá hoje ocorrer isto novamente, tempo de modernidade e avanço científico?” Respondo que não só o que ocorreu, como muito mais. O poder de Deus não mudou, assim como o Seu infindo amor pelos homens. Entretanto, há de se questionar: Haveria na presente época crentes sensíveis à voz do Senhor, dispostos a fazer a Sua vontade? Certa vez, Moody ouviu de um pregador chamado Henry Varley uma frase que mudaria sua vida: “O mundo está para ver o que Deus pode fazer com, e por meio de, e em um homem total e completamente consagrado a Ele.” Moody desejou ser este homem para sua época. Quem se apresentará para o nosso tempo?

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